Tríade da mulher atleta e RED-S
Contexto e Fisiopatologia
A baixa disponibilidade energética (LEA) — energia da dieta insuficiente para cobrir o gasto do treino e as funções fisiológicas basais — é a causa central e o gatilho de todo o espectro. Operacionalmente, define-se disponibilidade energética = (ingestão − gasto do exercício) / massa magra; valores < 30 kcal/kg de massa magra/dia associam-se a disfunção (referência histórica de Loucks), contra o ideal de ≈ 45 kcal/kg/dia — o consenso do COI 2023 alerta que esse limiar não é medível com acurácia na prática e NÃO deve ser corte diagnóstico rígido: o diagnóstico baseia-se em sinais, sintomas e fatores de risco. Quando a energia é insuficiente, o organismo suprime funções "não essenciais": reduz o GnRH pulsátil (hipogonadismo hipotalâmico), a leptina, o T3 e o IGF-1, elevando o cortisol — o que compromete o eixo reprodutivo e o metabolismo ósseo. A LEA pode ser intencional (dieta/estética) ou inadvertida (alto gasto sem compensação).
Tríade da mulher atleta
Liga três domínios num espectro contínuo (não é tudo ou nada):
- Baixa disponibilidade energética (com ou sem transtorno alimentar)
- Disfunção menstrual (amenorreia hipotalâmica funcional — diagnóstico de exclusão)
- Baixa densidade mineral óssea
O hipoestrogenismo crônico acelera a perda óssea justamente na fase de aquisição do pico de massa óssea, elevando o risco de fratura.
RED-S
O conceito de REDs (deficiência energética relativa no esporte; sigla atualizada de "RED-S" para "REDs" no consenso do COI 2023) amplia os efeitos para além do osso e da menstruação, atingindo imunidade, metabolismo, síntese proteica, saúde gastrointestinal, humor/cognição, sistema cardiovascular e desempenho (queda de força, resistência e capacidade de treino). Aplica-se a ambos os sexos; no homem manifesta-se por queda da testosterona e da libido.
Quadro Clínico e Diagnóstico
As fraturas por estresse (sobretudo recorrentes) são um sinal de alerta de comprometimento ósseo. Outros achados: bradicardia, hipotensão, intolerância ao frio, fadiga, queda de desempenho e alterações de humor. O diagnóstico é clínico e de exclusão:
- História alimentar, menstrual e de treino detalhada
- DXA para densidade óssea — em atletas, o Z-score < −1,0 já é preocupante (não se usa T-score); "low BMD" e "osteoporose" têm critérios específicos para atletas
- Investigar transtorno alimentar associado
- Excluir outras causas de amenorreia: gravidez, disfunção tireoidiana, hiperprolactinemia, SOP e falência ovariana
Diagnóstico Diferencial da amenorreia
- SOP: cursa com hiperandrogenismo e frequentemente sobrepeso — oposto do padrão da atleta hipoestrogênica/magra
- Hiperprolactinemia e disfunção tireoidiana: dosar prolactina, TSH e T4 livre
- Falência ovariana precoce: FSH elevado (na atleta, o LH/FSH estão baixos/normais)
Tratamento
- Aumentar a disponibilidade energética: mais ingestão calórica e/ou redução do gasto (menos volume de treino), com recuperação de peso — é a base do tratamento
- Abordagem multidisciplinar: médico, nutricionista esportivo e psicólogo
- Restaurar assim a função menstrual e a saúde óssea; garantir cálcio e vitamina D adequados
- O anticoncepcional combinado induz sangramentos por privação (mascara o eixo/retorno da menstruação) e não restaura o osso de forma comprovada — não deve substituir a recuperação energética; pode ser considerado em casos selecionados após otimização energética
Pontos-Chave
- A baixa disponibilidade energética é o fator central de toda a cascata
- A amenorreia da atleta é hipotalâmica funcional e diagnóstico de exclusão
- Fraturas por estresse recorrentes sinalizam comprometimento ósseo; em atleta, Z-score < −1,0 já preocupa
- RED-S vale para ambos os sexos e ultrapassa a tríade clássica
- O foco terapêutico é sempre a correção do déficit energético, e não o mascaramento hormonal dos sintomas com anticoncepcional
Pontos-chave
- A baixa disponibilidade energética é a causa central (déficit entre ingestão e gasto do treino)
- Tríade: baixa disponibilidade energética + disfunção menstrual + baixa densidade óssea (espectro contínuo)
- RED-S amplia os efeitos (imunidade, metabolismo, humor, CV, desempenho) e vale para ambos os sexos
- A amenorreia da atleta é hipotalâmica funcional — diagnóstico de exclusão
- Fraturas por estresse são um sinal de alerta de comprometimento ósseo
- Diagnóstico: história alimentar/menstrual + DXA; investigar transtorno alimentar
- Tratamento: aumentar a disponibilidade energética (mais ingestão e/ou menos gasto) e recuperar peso
- Anticoncepcional mascara o eixo e não restaura o osso — a base é a recuperação energética
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.