Tireoide e gestação
Contexto e Fisiologia
A gestação altera profundamente os testes tireoidianos: o hCG estimula a tireoide (efeito TSH-like, que reduz o TSH no 1º trimestre) e o estrogênio eleva a TBG, aumentando as frações totais de T4/T3. Há maior demanda de iodo e transferência de T4 materno ao feto (que depende do T4 materno até desenvolver a própria tireoide). A ATA 2026 (Korevaar et al.) substitui a diretriz de 2017 com várias mudanças práticas.
Valores de Referência do TSH
- Preferir faixas locais e por trimestre.
- Na ausência delas, usar o intervalo fixo de 0,1–4,0 mU/L (ou subtrair 0,4 do limite inferior e 0,5 do superior do intervalo não gestacional).
- Não usar mais o antigo corte fixo "< 2,5 / 3,0".
- Preferir T4 livre com ensaio confiável ou T4 total ajustado (~× 1,5 no 2º/3º trimestres, pela elevação da TBG).
Quem Testar (sem rastreio universal)
Não há evidência para rastreio universal → testar por fatores de risco (case-finding):
- História de disfunção/cirurgia tireoidiana ou tireoidite pós-parto
- TPOAb positivo, DM1 ou outra autoimunidade
- Bócio, infertilidade ou perdas gestacionais/prematuridade
- Radiação de cabeça/pescoço
Em uso de levotiroxina, dosar o TSH ao confirmar a gravidez e ~6 semanas pós-parto (ou após ajuste de dose).
Iodo
- 250 µg/dia (gestante e lactante), da dieta + suplemento.
- Nos de risco de deficiência: suplementar 150 µg/dia, idealmente ≥ 3 meses antes da concepção e mantido na lactação (idem em uso de antitireoidiano).
Hipotireoidismo Manifesto
- Tratar com levotiroxina em monoterapia (suspender T3/dessecada); alvo pré-concepcional 0,5–2,5.
- A necessidade sobe ~25% na 12ª semana e ~50% na 20ª → aumentar ~25% (≈ 2 doses extras/semana) já ao confirmar a gravidez.
- Novo início: se TSH < 6, confirmar em até 3 semanas; se ≥ 6 ou persistente, tratar.
Hipotireoidismo Subclínico (mais conservador em 2026)
- TSH > 10 → tratar.
- SCH leve no 1º trimestre → LT4 pode ser considerada.
- SCH leve diagnosticado APÓS o 1º trimestre → NÃO tratar; repetir o TSH em 4–6 semanas (costuma ser transitório).
- Em uso de LT4, alvo de TSH < 2,5.
Autoimunidade (TPOAb+) e Hipotiroxinemia Isolada
- Eutireoidiana TPOAb positiva → NÃO iniciar levotiroxina para melhorar desfechos gestacionais (ensaios TABLETS/T4LIFE negativos); o TPOAb serve para aconselhar sobre tireoidite pós-parto e guiar o seguimento.
- Hipotiroxinemia isolada: no 1º trimestre não tratar; após o 1º trimestre pode-se considerar.
Hipertireoidismo
- Diferenciar a tireotoxicose gestacional transitória (hiperêmese gravídica, sem TRAb, autolimitada) da doença de Graves (TRAb+); não testar a função tireoidiana na hiperêmese isolada.
- Antitireoidiano: PTU (se disponível) ATÉ 16 SEMANAS — ⚠️ o marco é 16 semanas (o fechamento da pele fetal), não o fim do 1º trimestre; depois de 16 semanas a ATA 2026 declara DESCONHECIDA a escolha do antitireoidiano preferido e adverte que trocar pode causar um período de controle subótimo. ⚠️ Na lactação a preferência se inverte: metimazol é preferido ao PTU (hepatotoxicidade do PTU, dose única diária). Usar a menor dose eficaz (alvo de T4 livre no terço superior/limite superior).
- Dosar TRAb no 1º trimestre na Graves; se > 3× o limite superior, repetir e monitorar a tireoide fetal/neonatal (TRAb cruza a placenta). Radioiodo contraindicado.
Nódulos e Pós-parto
- Nódulo/câncer diferenciado de baixo risco geralmente aguarda o pós-parto (cirurgia, se necessária, no 2º trimestre); radioiodo contraindicado.
- Atentar para a tireoidite pós-parto (fase tireotóxica destrutiva → hipotireoidismo transitório ou permanente), mais comum em TPOAb positivas.
Pontos-chave
- TSH: preferir faixa local/por trimestre; na falta, usar o intervalo fixo 0,1–4,0 mU/L (não mais o corte fixo "<2,5/3,0").
- Sem rastreio universal — testar por fatores de risco (disfunção/cirurgia tireoidiana, TPOAb+, DM1, bócio, infertilidade/perdas, radiação); em uso de LT4, dosar ao confirmar a gravidez.
- Iodo 250 µg/dia (gestante e lactante); nos de risco de deficiência, 150 µg/dia idealmente ≥3 meses antes da concepção e mantido na lactação.
- Hipotireoidismo manifesto: LT4 monoterapia, alvo pré-concepcional 0,5–2,5; a dose sobe ~25% na 12ª semana e ~50% na 20ª — subir ~25% já ao confirmar a gravidez.
- Subclínico (mudança 2026): TSH >10 tratar; leve no 1º trimestre pode considerar LT4; leve APÓS o 1º trimestre NÃO tratar (repetir o TSH em 4–6 semanas); em uso de LT4, alvo <2,5.
- Eutireoidiana TPOAb+ → NÃO iniciar LT4 para desfechos gestacionais (TABLETS/T4LIFE negativos); TPOAb+ serve para aconselhar tireoidite pós-parto e seguimento.
- Hipotiroxinemia isolada: 1º trimestre não tratar; após o 1º trimestre pode-se considerar.
- Hipertireoidismo: Graves (TRAb+) vs tireotoxicose gestacional transitória (hiperêmese, sem TRAb); PTU no 1º trimestre e metimazol depois; TRAb no 1º trimestre (se >3× ULN, monitorar feto); radioiodo contraindicado.
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.