Rastreamento do diabetes mellitus tipo 1
Rastreamento do Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)
O DM1 é uma doença autoimune crônica caracterizada pela destruição progressiva das células beta pancreáticas. Durante esse processo, são produzidos autoanticorpos anticélulas beta (anti-IA2/ICA512, anti-GAD, IAA e anti-ZnT8), que funcionam como marcadores bioquímicos da autoimunidade e permitem o diagnóstico antes do início clínico da doença.
Estadiamento
A doença é dividida em 4 estágios:
- Estágio 1: ≥2 autoanticorpos positivos, normoglicemia, assintomático.
- Estágio 2: ≥2 autoanticorpos positivos, disglicemia (sem critério diagnóstico de DM), assintomático. Subdividido em 2A (parâmetros próximos à normalidade) e 2B (próximos ao diagnóstico de DM).
- Estágio 3: Hiperglicemia que preenche critérios diagnósticos de DM (3A: assintomático; 3B: sintomático com necessidade de insulina imediata).
- Estágio 4: DM1 de longa duração.
O diagnóstico de DM1 pré-clínico requer ≥2 autoanticorpos positivos confirmados, sem critérios para DM.
Quem rastrear
Parentes de primeiro grau de pessoas com DM1 têm risco ~15 vezes maior de desenvolver a doença. Com ≥2 autoanticorpos positivos, o risco cumulativo de progressão ao estágio 3 é de ~84% em 15 anos e de ~100% ao longo da vida. Cerca de 90% dos casos de DM1 estágio 3 ocorrem sem história familiar, o que justifica, no futuro, o rastreamento populacional; porém, as limitações de infraestrutura no Brasil impedem sua recomendação como rotina atualmente.
Como rastrear
O rastreamento é feito pela dosagem de autoanticorpos com métodos validados (radioimunoensaio, ELISA, ECL ou ADAP). Toda positividade deve ser confirmada em nova amostra. O anti-ZnT8 pode ser reservado para quando apenas um dos outros três anticorpos for positivo.
Quando rastrear (crianças)
- Início entre 2–4 anos, com repetição entre 6–8 anos e entre 10–15 anos se negativos (sensibilidade de 80% com três rastreamentos).
- Para crianças acima de 15 anos sem rastreamento prévio: rastreamento único, sem repetição para negativos.
Avaliação glicêmica e estadiamento
Todos com ≥2 autoanticorpos positivos devem realizar avaliação do perfil glicêmico (GJ, HbA1c, TTGO e/ou CGM) para definir o estágio. O TTGO é considerado padrão-ouro. O critério de tempo >140 mg/dL no CGM ≥10% indica estágio 2, mas deve ser confirmado por método diferente.
Monitoramento periódico
A periodicidade varia conforme faixa etária e estágio:
- Crianças, estágio 2: trimestral; estágio 1 (<3 anos): trimestral; estágio 1 (3–9 anos): semestral; estágio 1 (≥9 anos): anual.
- Adultos, estágio 1: anual por 5 anos, depois bienal; estágio 2: semestral.
- Um único autoanticorpo positivo em adulto com fatores de risco: anual; sem fatores de risco: trienal.
Suporte psicossocial e intervenção
O rastreamento deve ser realizado em programas estruturados com educação em diabetes, aconselhamento e suporte psicológico. A ansiedade nos pais é transitória e atenuada pela educação. O teplizumabe (anti-CD3), aprovado pelo FDA desde 2023 para DM1 estágio 2 ≥8 anos, atrasou a progressão ao estágio 3 em mediana de ~24 meses vs. placebo; no Brasil, ainda não há medicação aprovada pela ANVISA para essa indicação. Participação em estudos clínicos deve ser oferecida sempre que disponível.
Pontos-chave
- O diagnóstico de DM1 pré-clínico exige ≥2 autoanticorpos anticélulas beta confirmados (anti-IA2, anti-GAD, IAA, anti-ZnT8), independentemente de hiperglicemia.
- Parentes de primeiro grau de pessoas com DM1 têm risco ~15 vezes maior; com ≥2 anticorpos, risco cumulativo de progressão ao estágio 3 é ~84% em 15 anos e ~100% ao longo da vida.
- Toda positividade de autoanticorpos deve ser confirmada em nova amostra independente para evitar falso-positivo transitório.
- Para crianças, o rastreamento ideal ocorre em 3 momentos: 2–4 anos, 6–8 anos e 10–15 anos (sensibilidade de 80%); acima de 15 anos sem rastreamento prévio, rastrear uma única vez.
- O estadiamento glicêmico usa GJ, HbA1c, TTGO e/ou CGM; o TTGO é padrão-ouro e o CGM (tempo >140 mg/dL ≥10%) é critério de estágio 2, mas requer confirmação por método diferente.
- O rastreamento reduz CAD ao diagnóstico em >80% em parentes de primeiro grau acompanhados em programas estruturados (estudo de Wentworth, n=17.105).
- O teplizumabe (anti-CD3) está aprovado pelo FDA desde 2023 para DM1 estágio 2 ≥8 anos, atrasando progressão ao estágio 3 em ~24 meses; no Brasil, nenhuma medicação imunomoduladora foi aprovada pela ANVISA para essa indicação.
- Suporte psicossocial, educação em diabetes e equipe multiprofissional são componentes essenciais de qualquer programa de rastreamento (R5, Classe I).
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.