Neuropatia Periférica Diabética
Diabetes2026
Fonte: Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz SBD 2026 — Diagnóstico e tratamento da neuropatia periférica diabética. Editor chefe Bertoluci MC. Ultima revisao 2026. https://diretriz.diabetes.org.br/
As 14 recomendações graduadas da Diretriz SBD 2026 para a polineuropatia diabética periférica (PND), organizadas por etapa: rastreio, diagnóstico diferencial, graduação, prevenção e tratamento da dor. O rastreio é anual desde o diagnóstico no DM2 e a partir do 5º ano no DM1, e exige dois testes simultâneos, um de fibras finas e um de fibras grossas. Opioide é recomendação de classe III. O controle glicêmico previne e retarda a PND, mas não reverte a perda neuronal já estabelecida.
Peso prognóstico da PND
- A PND carrega prognóstico, não é achado menor: em metanálise de 31 coortes com 155.934 participantes, quem tem diabetes e PND apresenta risco quase duas vezes maior de mortalidade por todas as causas (HR 1,96).
- É o fator de risco mais forte para úlcera de pé diabético (OR 5,88), e coorte nacional de 2026 mostrou risco 27% maior de amputação em quem tem neuropatia diabética do que em quem não tem doença microvascular (HR ajustado 1,27).
Rastreio: quando e como
- Anual, em todas as pessoas com diabetes, com ou sem sintomas, desde o momento do diagnóstico do DM2 e a partir do 5º ano de diagnóstico do DM1 (Classe I, Nível B). A assimetria entre os tipos repete a lógica do rastreio renal: no DM2 o período de hiperglicemia não diagnosticada antecede a consulta.
- Dois testes simultâneos: um de fibras finas e um de fibras grossas (Classe I, Nível B). Um teste isolado, como o monofilamento sozinho, não cumpre o critério diagnóstico.
- Afastar outras causas de polineuropatia periférica em toda pessoa com diabetes, com ou sem sintomas (Classe I, Nível C). A PND não se atribui automaticamente ao diabetes: na população geral, a polineuropatia sensitiva distal distribui-se entre diabetes (32,1%), álcool (23%), deficiência de vitamina B12 (9,1%), paraproteinemias (7,3%), hipotireoidismo (5,4%) e 23,1% sem causa identificada. De 10% a 50% das pessoas com diabetes podem ter uma causa adicional, e algumas mais de uma.
📊 Fibras finas e fibras grossas: o que cada teste vê
| Fibras | Sintomas | Instrumentos |
|---|
| Grossas, mielínicas (A-beta e A-alfa) | Dormência, formigamento e desequilíbrio com quedas frequentes | Martelo neurológico, diapasão de 128 Hz e monofilamento de 10 g |
| Finas, amielínicas (C) e pouco mielinizadas (A-delta) | Dor em queimação ou ardência, choque elétrico e dor tipo facada | Eixo que o monofilamento não avalia |
Gravidade e intensidade da dor
- Escalas de escore validadas podem ser consideradas para determinar a gravidade dos sintomas e sinais, acompanhar clinicamente e orientar o tratamento (Classe IIb, Nível B). Em comparação direta de sete escalas clínicas, o Modified Toronto Clinical Neuropathy Score teve o maior rendimento diagnóstico (sensibilidade de 98%, especificidade de 97%), seguido do Utah Early Neuropathy Score (sensibilidade de 85% a 92%, especificidade de 97%).
- A intensidade da dor deve ser considerada por escala validada, como a Escala Visual Analógica, para decidir e acompanhar o tratamento (Classe IIa, Nível C).
- O limiar para intervir na dor neuropática é EVA de 40 mm ou mais, ou EVN de 4 ou mais, com meta ideal de reduzir a intensidade dos sintomas em 50%.
📊 Graduação da dor neuropática
| Intensidade | EVA (mm) | EVN |
|---|
| Sem dor | 0 | 0 |
| Leve | 10 a 30 | 1 a 3 |
| Moderada | 40 a 60 | 4 a 6 |
| Grave | 70 a 90 | 7 a 9 |
| Pior dor possível | 100 | 10 |
Prevenção: glicemia e estilo de vida
- A otimização do controle glicêmico é recomendada para prevenir ou retardar a progressão da PND (Classe I, Nível A), a única recomendação de Nível A do documento sobre prevenção. No DM1 o controle intensivo previne e retarda a PND, mas não reverte a perda neuronal já estabelecida: a janela de benefício é anterior ao dano instalado. No DCCT, o tratamento intensivo com insulina reduziu o risco relativo de PND em 78%, e no seguimento EDIC o benefício persistiu por 14 anos após o término do estudo original, a memória metabólica.
- No DM2 o controle intensivo reduz a incidência e o risco relativo de PND em apenas 5% a 9%, bem menos que no DM1, pela interferência de outros fatores de risco. Prometer ao paciente com DM2 o mesmo ganho do DM1 é exagerar o efeito.
- Intervenções de estilo de vida são recomendadas, com controle do peso, da pressão arterial e da dislipidemia, para reduzir o risco e retardar a progressão no DM1 e no DM2 (Classe I, Nível B). O alvo é o risco cardiometabólico inteiro, não só a glicemia.
- No UK Biobank, com 18.092 participantes com DM2, qualquer nível de atividade física associou-se a menor risco de PND; o nível mínimo efetivo correspondeu a menos de 1,5 hora de caminhada por semana, abaixo da meta convencional, o que muda a conversa com quem é sedentário.
- Metanálise de 12 estudos com 32.756 participantes mostrou que a cirurgia metabólica reduziu a incidência de PND frente ao tratamento não cirúrgico (OR 0,27).
Tratamento da dor
- Primeira linha (Classe I, Nível C): gabapentinoide (pregabalina), inibidor da recaptação de noradrenalina e serotonina (duloxetina) ou antidepressivo tricíclico (amitriptilina), pesando eficácia, custo, tolerabilidade e efeitos adversos. Entre eles, o antidepressivo tricíclico tem o menor NNT (4,6), ainda que tolerabilidade e comorbidade decidam a escolha clínica.
- Escalonar a dose até a máxima tolerável quando a resposta é inadequada (Classe I, Nível B). Trocar de fármaco antes disso descarta a opção sem tê-la testado, e a falta de eficácia só se julga após duas a quatro semanas de uso em dose adequada. Redução da dor de 30% a 49% é resposta clinicamente relevante; de 50% ou mais é resposta robusta, com benefício no sono, na fadiga, na depressão, na qualidade de vida, na funcionalidade e na capacidade de trabalho.
- Opioides: não recomendados para a dor da PND, pelo maior potencial de efeitos adversos e de dependência química (Classe III, Nível C). É contraindicação formal, não mera preferência; o documento afasta opioide forte e tapentadol tanto de primeira quanto de segunda linha.
- Terapia combinada quando a dor persiste apesar de monoterapia em dose otimizada (Classe I, Nível B): amitriptilina suplementada com pregabalina, pregabalina suplementada com amitriptilina ou duloxetina suplementada com pregabalina. No OPTION-DM, a monoterapia aliviou a dor em apenas um terço dos participantes; a combinação acrescentou em média um ponto na escala numérica e 18% a mais de pessoas com controle adequado. Pregabalina suplementada com amitriptilina teve a menor descontinuação por efeitos adversos, e 54% dos participantes atingiram redução de 50% da dor.
- Redução gradual pode ser considerada após seis meses de alívio completo (Classe IIa, Nível C); se os sintomas recidivarem, mantém-se dose menor com nova tentativa depois. O tratamento não é presumidamente vitalício.
- Ácido alfa-lipoico (ácido tióctico) deve ser considerado na PND dolorosa para tratar dor, parestesia e dormência (Classe IIa, Nível B), grau superior ao da capsaicina.
- Adesivo de capsaicina a 8% pode ser considerado como adjuvante na dor refratária, aplicado em ambiente ambulatorial ou hospitalar, por até três meses (Classe IIb, Nível C).
- Dor refratária tem definição operacional: falha da terapia combinada após seis semanas apesar de titulação até as doses máximas toleradas, com controle glicêmico adequado e estável, dentro das metas, e sem neuropatia induzida por tratamento. Sem isso, o rótulo de refratária é prematuro.
📊 Recomendações graduadas (SBD 2026)
| Recomendação | Classe | Nível |
|---|
| Rastreio anual desde o diagnóstico no DM2 e a partir do 5º ano no DM1 | I | B |
| Dois testes simultâneos: fibras finas e fibras grossas | I | B |
| Afastar outras causas de polineuropatia | I | C |
| Escalas de escore validadas para gravidade e acompanhamento | IIb | B |
| Intensidade da dor por escala validada | IIa | C |
| Otimização do controle glicêmico para prevenir ou retardar a PND | I | A |
| Estilo de vida: peso, pressão arterial e dislipidemia | I | B |
| Primeira linha da dor: pregabalina, duloxetina ou amitriptilina | I | C |
| Escalonar a dose até a máxima tolerável antes de trocar | I | B |
| Opioides na dor da PND | III | C |
| Terapia combinada quando a monoterapia otimizada falha | I | B |
| Redução gradual após seis meses de alívio completo | IIa | C |
| Adesivo de capsaicina a 8% na dor refratária | IIb | C |
| Ácido alfa-lipoico na PND dolorosa | IIa | B |
⚠️ Pegadinhas de prova
- Monofilamento isolado não diagnostica PND: são dois testes, um de cada tipo de fibra.
- Rastreio no DM1 começa no 5º ano; no DM2, no diagnóstico.
- Opioide e tapentadol são classe III, fora da primeira e da segunda linha.
- A falha de um analgésico só se julga após duas a quatro semanas em dose adequada.
- Controle glicêmico previne e retarda, mas não reverte a perda neuronal; no DM2 o ganho é de 5% a 9%.
Pontos-chave
- 📌 Diretriz SBD 2026 — Diagnóstico e tratamento da neuropatia periférica diabética
- Rastreio anual, com ou sem sintomas: desde o diagnóstico no DM2 e a partir do 5º ano no DM1 (I, B).
- Diagnóstico exige dois testes simultâneos, um de fibras finas e um de fibras grossas (I, B); o monofilamento sozinho não basta.
- Afastar outras causas (I, C): de 10% a 50% das pessoas com diabetes têm uma causa adicional de polineuropatia.
- Prognóstico: mortalidade quase dobrada (HR 1,96), fator mais forte para úlcera do pé (OR 5,88) e 27% mais amputação.
- Controle glicêmico previne e retarda (I, A), mas não reverte a perda neuronal: o DCCT reduziu o risco em 78% no DM1; no DM2 o ganho é de 5% a 9%.
- Dor: primeira linha com pregabalina, duloxetina ou amitriptilina (I, C); escalonar até a dose máxima tolerável antes de trocar (I, B); julgar a resposta só após 2 a 4 semanas.
- Opioides não são recomendados (III, C); tapentadol e opioide forte ficam fora da primeira e da segunda linha.
- Terapia combinada quando a monoterapia otimizada falha (I, B): pregabalina com amitriptilina teve a menor descontinuação no OPTION-DM.
- Ácido alfa-lipoico deve ser considerado (IIa, B); capsaicina a 8% pode ser considerada na dor refratária (IIb, C); reduzir a medicação após 6 meses de alívio completo (IIa, C).
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.