Manejo Perioperatório do Diabetes
As 19 recomendações graduadas do Posicionamento Conjunto SBD 2026 sobre o perioperatório de cirurgia eletiva, organizadas por etapa: rastreio e meta pré-operatória, o que fazer com cada antidiabético, as insulinas, o intraoperatório e a internação. A meta de HbA1c pré-operatória é abaixo de 8% e o alvo intraoperatório é moderado (100 a 180 mg/dL). O inibidor de DPP-4 é o único oral com recomendação de manter em Nível A; o inibidor de SGLT2 sai três a quatro dias antes; o agonista de GLP-1 é mantido em quem está estável há mais de 12 semanas.
Rastreio e meta pré-operatória
- O rastreio de diabetes no pré-operatório de cirurgia eletiva é recomendado em quem tem indicação de avaliação de risco cirúrgico, por glicemia de jejum e hemoglobina glicada (Classe I, Nível B). A consulta pré-operatória vira porta de entrada diagnóstica, não só liberação para o ato. O rendimento justifica o exame: em cirurgia não cardíaca a prevalência de diabetes não diagnosticado foi de 10%, e em 502.478 pacientes do programa de qualidade do Colégio Americano de Cirurgiões com HbA1c registrada foi de 5%, com mais complicações médicas (8,9%) à análise multivariada. A glicemia pré-operatória média era maior entre os que não conheciam o diagnóstico: quem não sabe chega pior à cirurgia.
- Otimizar o controle glicêmico de quem já tem diabetes, com HbA1c abaixo de 8% (Classe I, Nível B), e ajustar antidiabéticos e insulina para esse alvo sem episódios de hipoglicemia (Classe I, Nível B). O alvo perioperatório é próprio, nem o da consulta ambulatorial nem o afrouxamento do idoso frágil, e a restrição da hipoglicemia é parte da meta, não ressalva. Em coorte prospectiva de 3.089 revascularizações eletivas do miocárdio, HbA1c elevada associou-se a maior mortalidade hospitalar, infarto e infecção esternal profunda; acima de 8,6%, o risco de óbito hospitalar foi quatro vezes maior, e cada aumento de 1% elevou mortalidade e complicações mesmo após ajuste multivariado.
📊 Antidiabéticos: o que fazer com cada classe antes da cirurgia
| Classe | Conduta | Grau |
|---|---|---|
| Sulfonilureias (glibenclamida, glimepirida, gliclazida) e glinidas | Suspender nas 24 horas que antecedem a cirurgia | Classe I, Nível C |
| Clorpropamida | Suspender com 48 a 72 horas de antecedência, com avaliação prévia do endocrinologista, pela meia-vida prolongada | Exceção dentro dos secretagogos |
| Metformina | Deve ser considerado manter até o dia anterior e reintroduzir após o procedimento, pela evolução clínica e pela ausência de complicações; na tabela de manejo, considerar suspender no dia da cirurgia | Classe IIa, Nível B |
| Acarbose e repaglinida | Suspender no dia da cirurgia | Tabela de manejo |
| Inibidor de SGLT2 | Suspender com três a quatro dias de antecedência antes de cirurgia de grande porte ou procedimento invasivo com redução da ingestão calórica, para minimizar o risco de cetoacidose euglicêmica; nos demais casos, manter, com avaliação individual | Classe I, Nível B |
| Inibidor de DPP-4 | Manter no perioperatório de cirurgia eletiva: a recomendação de manejo de antidiabético oral com o grau mais alto do documento | Classe I, Nível A |
| Pioglitazona | Pode ser considerada mantida ambulatorialmente no perioperatório de cirurgia eletiva não cardíaca | Classe IIb, Nível C |
| Agonista de GLP-1 ou co-agonista GIP/GLP-1, esquema estável há mais de 12 semanas e sem risco de broncoaspiração | Manter dose e intervalo habituais | Classe I, Nível C |
| Agonista de GLP-1 ou co-agonista GIP/GLP-1, com risco de broncoaspiração, em escalonamento ou sem estabilidade há 12 semanas | Suspender por sete dias (longa duração) ou um dia (curta duração) | Classe I, Nível C |
Agonista de GLP-1 e o conteúdo gástrico
- Antes de procedimento com sedação ou anestesia geral, quem usa agonista de GLP-1 ou co-agonista GIP/GLP-1 é preparado pelo risco de conteúdo gástrico residual: dieta líquida nas 24 horas que antecedem e jejum de 8 a 12 horas, antecipado individualmente quando necessário (Classe I, Nível C). A dieta líquida clara reduziu o resíduo gástrico de 10% para 1,5% antes de endoscopia digestiva alta.
- A ultrassonografia gástrica à beira do leito (POCUS) é recomendada sempre que disponível, por ser boa preditora de resíduo gástrico (Classe I, Nível C). Na validação em jejum simulado, a sensibilidade foi de 100% e a especificidade de 97,5%, e o achado muda conduta: permite decidir entre suspender o procedimento e realizar aspiração gástrica, conforme a urgência e o risco.
- A retenção é comum, o evento temido é raro: metanálise de 23 estudos com 262.018 pacientes mostrou mais resíduo gástrico em usuários de agonista de GLP-1 (OR 4,54) e mais interrupção precoce da endoscopia, sem diferença significativa no risco de pneumonia aspirativa.
- A probabilidade de retenção sobe com a glicemia acima de 150 mg/dL e acresce 36% a cada elevação de 1% na HbA1c, mesmo após ajuste para o tipo de agonista e o tempo de suspensão: o mau controle glicêmico é, por si, fator de risco. Sintoma digestivo ativo (náusea, vômito, dispepsia, distensão abdominal) foi o fator mais fortemente associado a resíduo gástrico em usuários de semaglutida.
Metformina e inibidor de SGLT2: o que a evidência diz
- O receio de acidose lática com metformina perioperatória não se confirmou: em 1.800 revascularizações do miocárdio, os 387 que a usaram até a véspera não tiveram aumento de acidose lática nem outras diferenças significativas; na metanálise Cochrane, a incidência foi semelhante entre usuários e não usuários (4,3 contra 5,4 casos por 100.000 pacientes-ano).
- A principal causa de cetoacidose euglicêmica perioperatória com inibidor de SGLT2 é a modificação da dieta, sobretudo a redução do aporte de carboidrato, não a cirurgia em si. Em revisão sistemática de 99 casos, nenhum episódio ocorreu quando o fármaco foi suspenso pelo menos três dias antes.
- Em ensaio randomizado com 250 pacientes cirúrgicos, a linagliptina teve eficácia semelhante ao esquema basal-bolus em quem tinha glicemia abaixo de 200 mg/dL, com redução de 86% nos episódios de hipoglicemia.
Insulinas
- Basal de ação longa: deve ser considerado manter a dose convencional no DM1 ou LADA que usam até 50% da dose diária total como basal ou têm estabilidade da glicemia de jejum no monitoramento contínuo; para os demais, reduzir de 20% a 30% desde a noite anterior até o fim do jejum, e nos análogos de ação ultralenta a redução começa 72 horas antes (Classe IIa, Nível B). Em quem usa dose elevada de basal (mais de 60% da dose total ou acima de 0,6 UI/kg/dia), a redução deve ser maior, cerca de 50%.
- NPH: deve ser considerado manter a dose habitual na noite anterior, com redução de 50% da dose da manhã no dia do procedimento em quem usa dois terços da dose diária total pela manhã ou mais de 50% da dose diária total como NPH (Classe IIa, Nível C). O ajuste é assimétrico entre noite e manhã, por farmacocinética.
- Prandiais fixas de ação curta, rápida ou ultrarrápida: suspender no período de jejum, mantendo a basal com os ajustes indicados e bolus de correção para hiperglicemias (Classe I, Nível C). Durante o jejum, o basal-bolus vira basal-plus.
Intraoperatório e internação
- Alvo glicêmico moderado, de 100 a 180 mg/dL, evitando valores abaixo de 70 mg/dL (Classe I, Nível A). O controle mais apertado não é a conduta padrão: em revascularização do miocárdio, mirar 100 a 140 mg/dL não reduziu as complicações perioperatórias de quem já tinha diabetes, frente ao alvo de 141 a 180 mg/dL.
- Glicemia a cada hora no intraoperatório de cirurgia de médio e grande porte, capilar, venosa ou arterial (Classe I, Nível A). A hipoglicemia pode ser mascarada pela anestesia geral e associa-se a desfechos adversos, incluindo lesão neurológica irreversível; no pós-operatório, analgésicos e sedativos atenuam a adaptação fisiológica à hipoglicemia.
- Insulina regular endovenosa no intraoperatório e no pós-operatório imediato de cirurgia de grande porte, especialmente com terapia intensiva (Classe I, Nível A), com metas moderadas de 140 a 180 mg/dL, e não com o alvo estrito do estudo original de Van den Berghe, cujo benefício não se reproduziu quando a nutrição parenteral precoce saiu da rotina.
- Internado: insulina subcutânea em esquema basal, basal-plus ou basal-bolus (Classe I, Nível A).
📊 Recomendações graduadas (Posicionamento SBD 2026)
| Recomendação | Classe | Nível |
|---|---|---|
| Rastreio de diabetes no pré-operatório, por glicemia de jejum e HbA1c | I | B |
| Otimizar o controle glicêmico, com HbA1c abaixo de 8% | I | B |
| Ajustar antidiabéticos e insulina para HbA1c abaixo de 8%, sem hipoglicemia | I | B |
| Suspender sulfonilureias e glinidas nas 24 horas anteriores | I | C |
| Metformina: manter até o dia anterior e reintroduzir após o procedimento | IIa | B |
| Inibidor de SGLT2: suspender três a quatro dias antes de cirurgia de grande porte ou com redução calórica | I | B |
| Agonista de GLP-1 ou co-agonista GIP/GLP-1: dieta líquida 24 horas antes e jejum de 8 a 12 horas | I | C |
| Ultrassonografia gástrica à beira do leito sempre que disponível | I | C |
| Manter o agonista de GLP-1 ou co-agonista GIP/GLP-1 estável há mais de 12 semanas e sem risco de broncoaspiração | I | C |
| Suspender o agonista de GLP-1 ou co-agonista GIP/GLP-1 por sete dias (longa) ou um dia (curta) com risco, em escalonamento ou sem estabilidade | I | C |
| Manter o inibidor de DPP-4 | I | A |
| Pioglitazona pode ser mantida em cirurgia eletiva não cardíaca | IIb | C |
| Basal de ação longa: manter, ou reduzir 20% a 30%; ultralenta, 72 horas antes | IIa | B |
| NPH: dose habitual na noite anterior e metade da dose da manhã | IIa | C |
| Suspender as prandiais fixas no jejum, com correção | I | C |
| Alvo perioperatório de 100 a 180 mg/dL, evitando menos de 70 | I | A |
| Glicemia a cada hora no intraoperatório de médio e grande porte | I | A |
| Insulina regular endovenosa em cirurgia de grande porte | I | A |
| Insulina subcutânea basal, basal-plus ou basal-bolus no internado | I | A |
⚠️ Pegadinhas de prova
- O inibidor de DPP-4 é mantido (Nível A); o inibidor de SGLT2 sai três a quatro dias antes, mas só quando há grande porte ou redução calórica.
- Clorpropamida não segue a regra das 24 horas: 48 a 72 horas de antecedência.
- Agonista de GLP-1 estável há mais de 12 semanas e sem risco de broncoaspiração não é suspenso; o preparo é dieta líquida por 24 horas e jejum de 8 a 12 horas.
- O alvo intraoperatório é moderado (100 a 180 mg/dL); mirar 100 a 140 não reduziu complicações.
- A redução pré-operatória da basal é maior (cerca de 50%) em quem usa mais de 60% da dose total como basal ou acima de 0,6 UI/kg/dia.
Pontos-chave
- 📌 Posicionamento Conjunto SBD 2026 — Rastreamento e controle da hiperglicemia no perioperatório
- Rastrear diabetes no pré-operatório de cirurgia eletiva com glicemia de jejum e HbA1c (I, B): 5% a 10% chegam à cirurgia sem diagnóstico.
- Meta pré-operatória: HbA1c abaixo de 8%, sem hipoglicemia (I, B); acima de 8,6%, o óbito hospitalar na revascularização foi quatro vezes maior.
- Sulfonilureias e glinidas: suspender 24 horas antes (I, C); clorpropamida, 48 a 72 horas antes.
- Metformina: manter até o dia anterior (IIa, B); a acidose lática perioperatória não se confirmou.
- Inibidor de SGLT2: suspender três a quatro dias antes de cirurgia de grande porte ou com redução calórica (I, B); nenhuma cetoacidose nos 99 casos revisados quando suspenso com pelo menos 3 dias.
- Inibidor de DPP-4: manter (I, A), a única recomendação de antidiabético oral em Nível A.
- Agonista de GLP-1 ou co-agonista GIP/GLP-1: dieta líquida por 24 horas e jejum de 8 a 12 horas (I, C); manter se estável há mais de 12 semanas e sem risco de broncoaspiração; suspender 7 dias (longa) ou 1 dia (curta) se houver risco (I, C); POCUS gástrico sempre que disponível (I, C).
- Insulinas: basal longa mantida ou reduzida de 20% a 30% (ultralenta: 72 horas antes); NPH da manhã pela metade; prandiais fixas suspensas no jejum, com correção.
- Alvo intraoperatório de 100 a 180 mg/dL, evitando menos de 70 (I, A); glicemia a cada hora (I, A); insulina regular endovenosa em grande porte (I, A); internado: basal, basal-plus ou basal-bolus subcutânea (I, A).
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.