Hipoparatireoidismo
Contexto e Fisiopatologia
O hipoparatireoidismo resulta da deficiência de PTH (ou, mais raramente, da resistência à sua ação no pseudo-hipoparatireoidismo). Sem PTH suficiente, cai a reabsorção tubular renal de cálcio, reduz-se a conversão renal de 25-OH-D em calcitriol (1,25-di-hidroxivitamina D) e diminui a mobilização de cálcio do osso, além de aumentar a reabsorção de fosfato. O resultado é o padrão bioquímico clássico de hipocalcemia com hiperfosfatemia (Consenso Internacional, 2022).
Etiologia
- Pós-cirúrgica: causa mais comum (após tireoidectomia, paratireoidectomia ou cirurgias cervicais amplas); pode ser transitória ou permanente (persistente após ~6 meses).
- Autoimune: isolada ou parte da síndrome poliglandular autoimune tipo 1 (APECED), com candidíase mucocutânea e insuficiência adrenal.
- Genética: síndrome de DiGeorge (del 22q11), mutações ativadoras do receptor sensor de cálcio (hipocalcemia autossômica dominante), síndromes complexas.
- Infiltrativa/funcional: hipomagnesemia grave, doenças de depósito, irradiação cervical.
Quadro Clínico
Os sintomas refletem a hipocalcemia e a hiperexcitabilidade neuromuscular:
- Parestesias periorais e de extremidades, cãibras e tetania
- Sinais de Chvostek (percussão do facial) e Trousseau (espasmo carpal ao insuflar o manguito)
- Prolongamento do intervalo QT (risco de arritmia)
- Casos graves: laringoespasmo, broncoespasmo e convulsões
- Crônico: calcificações de gânglios da base, catarata, alterações dentárias e neuropsiquiátricas
Diagnóstico
O diagnóstico é bioquímico: hipocalcemia com hiperfosfatemia e PTH baixa ou inapropriadamente normal (deveria estar elevada frente à hipocalcemia). Confirmar com cálcio iônico ou cálcio total corrigido pela albumina, dosar magnésio (a hipomagnesemia é diferencial e agravante), 25-OH-D, fósforo, creatinina e calciúria de 24h. O contexto (antecedente de cirurgia cervical) é decisivo.
Tratamento
O tratamento crônico baseia-se em cálcio elementar oral + vitamina D ativa (calcitriol), já que sem PTH a hidroxilação renal está comprometida. Metas e cuidados:
- Manter o cálcio na faixa baixa-normal (aliviar sintomas) para evitar hipercalciúria e nefrocalcinose
- Manter o produto cálcio × fósforo controlado (risco de calcificações ectópicas)
- Tiazídico: reduz a excreção urinária de cálcio, útil na hipercalciúria
- Repor magnésio: a hipomagnesemia prejudica a secreção e a ação da PTH e perpetua a hipocalcemia — corrigi-la é pré-requisito para tratar a hipocalcemia refratária
- Dieta: restrição de fósforo/lácteos em excesso quando hiperfosfatemia importante
- PTH recombinante/análogos (ex.: PTH 1-84): reservados aos casos não controlados com cálcio e vitamina D ativa (hipercalciúria, doses altas de cálcio/calcitriol, má qualidade de vida)
Hipocalcemia Aguda / Sintomática
- Gluconato de cálcio IV na tetania, laringoespasmo, convulsão ou QT muito prolongado, com monitorização cardíaca; iniciar cálcio oral e calcitriol em seguida.
Seguimento e Situações Especiais
- Monitorar cálcio urinário de 24h e função renal pelo risco de nefrocalcinose/nefrolitíase decorrente da hipercalciúria.
- Vigiar calcificações (gânglios da base, catarata).
- Gestação: a necessidade de calcitriol pode mudar; monitorar cálcio de perto.
Reposição de PTH (novidade 2024)
Historicamente o tratamento era controle sintomático (cálcio + calcitriol) — não a reposição do hormônio faltante. A palopegteriparatida (TransCon PTH), pró-fármaco de PTH de ação prolongada (1×/dia SC), é a 1ª verdadeira reposição de PTH: no ensaio PaTHway (52 semanas), ~81% normalizaram o cálcio com independência da terapia convencional e ~95% dispensaram cálcio/vitamina D ativa, reduzindo a calciúria. Aprovada (FDA 2024 / EMA 2023) para o hipoparatireoidismo crônico — na prática, reservada aos casos não controlados com cálcio e vitamina D ativa (o PTH 1-84 já era usado como análogo; a novidade é a reposição fisiológica de ação prolongada).
Pontos-Chave
- Perfil clássico: hipocalcemia + hiperfosfatemia + PTH baixa/normal (contraste com a deficiência de vitamina D, em que a PTH sobe).
- Base do tratamento: cálcio + calcitriol, mantendo cálcio na faixa baixa-normal.
- Corrigir magnésio antes de tratar hipocalcemia refratária; usar tiazídico para poupar cálcio urinário; PTH análoga só se refratário.
- Vigiar sempre a hipercalciúria e a função renal.
Pontos-chave
- Deficiência de PTH → hipocalcemia com hiperfosfatemia
- Causa mais comum: pós-cirúrgica (tireoidectomia); também autoimune e genética
- Sinais de hipocalcemia: Chvostek, Trousseau, parestesias, tetania, QT longo
- Tratamento crônico: cálcio + vitamina D ativa (calcitriol)
- Alvo de cálcio na faixa baixa-normal para evitar hipercalciúria
- Tiazídico poupa cálcio urinário; repor magnésio (hipomagnesemia perpetua a hipocalcemia)
- PTH recombinante/análogos nos casos não controlados
- Monitorar cálcio urinário e função renal (risco de nefrocalcinose)
- Novidade 2024: palopegteriparatida (TransCon PTH, 1x/dia SC) é a 1ª verdadeira reposição de PTH — normaliza o cálcio e torna a maioria independente de cálcio/vitamina D ativa (PaTHway)
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.