Hipogonadismo masculino — Posicionamento SBEM/SBU/ABEMSS (2026)
O que este documento é
Posicionamento conjunto da SBEM, da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da ABEMSS, publicado no Int Braz J Urol 2026;52(3):e20250610. Cobre diagnóstico, investigação etiológica, terapia de reposição de testosterona (TRT) e preservação da fertilidade. O contexto brasileiro que motivou o texto: envelhecimento populacional, obesidade e síndrome metabólica e uso de anabolizantes, que aumentaram a frequência do hipogonadismo funcional.
Rastreamento: perguntar sim, rastrear não
- Recomendação 02: perguntar a todos os homens, na consulta, sobre sinais e sintomas de testosterona baixa (Classe I, Nível A).
- Recomendação 03: contra o rastreamento de rotina da população geral (Classe III, Nível A).
Diagnóstico laboratorial
- Testosterona total (TT) é o exame inicial. Coleta pela manhã, entre 7 e 10 h, em jejum noturno — o nível oscila no dia e sofre efeito de alimentação e glicose.
- Toda dosagem baixa exige 2ª amostra nas mesmas condições, idealmente com 4 semanas de intervalo. Não colher durante doença aguda ou exacerbação de doença crônica.
- Os três patamares:
- TT < 264 ng/dL → apoia o diagnóstico.
- TT > 350 ng/dL → tipicamente exclui.
- TT entre 264 e 350 ng/dL → zona cinzenta: exige avaliação adicional, sobretudo se houver alteração de SHBG.
- Na zona cinzenta ou com SHBG alterada: dosar SHBG e albumina e calcular a testosterona livre pela equação de Vermeulen — a diálise de equilíbrio é o padrão-ouro, mas é cara e pouco disponível. Corte da livre calculada: 6,5 ng/dL.
- O que altera a SHBG: reduzem — obesidade, diabetes, glicocorticoide, esteroides androgênicos e progestogênicos, síndrome nefrótica, acromegalia e hipotireoidismo; aumentam — as condições opostas (ver o capítulo de hipogonadismo).
Classificação e investigação etiológica
- Confirmado o hipogonadismo, dosar LH e FSH para separar primário de secundário.
- Gonadotrofinas baixas ou inapropriadamente normais → investigar com prolactina, função tireoidiana e índice de saturação de transferrina (sobrecarga de ferro).
- RM de sela quando a testosterona é ≤ 150 ng/dL, na presença de alterações de outros hormônios hipofisários.
- Espermograma é ferramenta fundamental na avaliação de quem tem interesse reprodutivo.
Contraindicações à reposição
Absolutas (impedem o tratamento):
- Câncer de mama masculino, atual ou prévio (Classe I, Nível C).
- Câncer de próstata ativo ou suspeito sem avaliação e tratamento urológicos adequados. Toque retal e PSA antes de iniciar em homens de 55–69 anos, ou 40–69 se risco aumentado (Classe I, Nível B).
- Desejo de fertilidade a curto prazo — a testosterona exógena suprime o eixo e a espermatogênese (Classe I, Nível B).
Relativas (exigem decisão individualizada e monitorização rigorosa):
- Hematócrito basal > 48% — esses homens têm mais chance de ultrapassar 54% em tratamento; o risco é maior com formulações intramusculares, sobretudo ésteres de ação curta (Classe IIa, Nível B).
- Apneia obstrutiva do sono grave ou não tratada. Polissonografia de rotina em assintomáticos não é recomendada (Classe IIa, Nível B).
- Sintomas urinários baixos graves (IPSS > 19) (Classe IIb, Nível C).
- Insuficiência cardíaca descompensada ou grave (NYHA III–IV) (Classe IIa, Nível C).
- Infarto ou AVC recentes — adiar a TRT por pelo menos 6 meses (Classe IIa, Nível C).
Alvo e monitorização
- Alvo: 450–600 ng/dL — a faixa média do normal, alinhada com EAU e Endocrine Society. O objetivo maior é a melhora clínica, não o número.
- Testosterona e hematócrito aos 3, 6 e 12 meses, depois anualmente.
- Hematócrito > 54% durante o tratamento: suspender temporariamente até normalizar; retomar com dose menor.
- PSA aos 3, 6 e 12 meses. Depois do primeiro ano, seguir o rastreamento de próstata da população geral (decisão compartilhada, não teste universal).
- Alta modesta nos primeiros 3–6 meses é esperada (até ~1,0 ng/mL).
- Encaminhar ao urologista se: aumento persistente após o 1º ano, velocidade > 0,75 ng/mL/ano ou alta > 1,4 ng/mL em 12 meses.
- Cortes por idade: > 2,5 (40–49 anos), > 3,5 (50–59) e > 4,0 (≥ 60).
- Sem melhora sintomática apesar de testosterona normalizada por período adequado (tipicamente 6 meses): reavaliar diagnóstico, adesão, comorbidades e expectativas.
Fertilidade
- Quem deseja fertilidade não usa testosterona. Alternativas: clomifeno, inibidor de aromatase ou gonadotrofinas.
- hCG em monoterapia: 1.500 a 2.000 UI, 2–3x/semana, subcutâneo, ajustando pela testosterona sérica (alvo 400–700 ng/dL), por pelo menos 3–6 meses para avaliar resposta.
- hCG + FSH: FSH 75–150 UI, 2–3x/semana — indicado quando não há resposta adequada ao hCG isolado após 6 meses, ou nos casos graves de hipogonadismo hipogonadotrófico.
Hipogonadismo funcional: tratar a causa antes
Reversão é rara no hipogonadismo orgânico, mas o funcional pode se resolver tratando a condição de base. Causas potencialmente reversíveis: hiperprolactinemia, doença renal terminal, opioides, uso prévio de anabolizantes, glicocorticoides, álcool ou cannabis em excesso, doença sistêmica, deficiências nutricionais, exercício excessivo, obesidade, síndrome metabólica e distúrbios do sono. Identificada uma causa reversível, considerar suspensão de teste da TRT para reavaliar o eixo.
📊 Onde cada sociedade coloca o corte de testosterona total
| Sociedade | Corte inferior de TT |
|---|---|
| Endocrine Society | 264 ng/dL |
| American Urological Association | 300 ng/dL |
| EAU, EAA, ISSM | ~350 ng/dL |
| Este posicionamento (SBEM/SBU/ABEMSS) | < 264 apoia · > 350 exclui · 264–350 exige livre calculada |
📊 Tabela 1 — Sinais e sintomas sugestivos de deficiência de testosterona
| Grupo | Sinais e sintomas |
|---|---|
| Específicos de deficiência de testosterona | Desenvolvimento sexual incompleto ou tardio; perda de pelos corporais (faciais, axilares e pubianos); testículos muito pequenos (< 6 mL) |
| Sugerem deficiência de testosterona | ↓ libido e ↓ pensamentos sexuais; disfunção erétil e menos ereções espontâneas (matinais e noturnas); ejaculação retardada, ↓ volume ejaculado e ↓ intensidade do orgasmo; ginecomastia; proporções corporais eunucoides; infertilidade; sintomas vasomotores (ondas de calor, sudorese); enrugamento fino da pele (sobretudo peribucal); perda de estatura, fraturas por baixo trauma e ↓ densidade mineral óssea |
| Inespecíficos, mas associados | ↓ energia, humor deprimido, irritabilidade, ↓ motivação; fadiga; alterações cognitivas (concentração e memória); distúrbios do sono e sonolência diurna excessiva; ↓ força muscular e ↓ desempenho físico; ↑ adiposidade (sobretudo visceral); anemia normocrômica e normocítica leve, sem outra explicação |
📊 Tabela 2 — Classificação e causas
O documento separa cada nível de falha em orgânico (lesão estabelecida) e funcional (potencialmente reversível com o tratamento da causa).
Hipogonadismo primário (falha testicular)
| Orgânico | Funcional |
|---|---|
| Síndrome de Klinefelter | Medicamentos (inibidores da síntese de androgênios) |
| Criptorquidia, anorquia, distrofia miotônica | Doença renal em estágio terminal\* |
| Alguns cânceres, quimioterapia, irradiação/dano testicular, orquiectomia | — |
| Orquite | — |
| Trauma testicular, torção | — |
| Idade avançada | — |
Hipogonadismo secundário (falha hipotálamo-hipofisária)
| Orgânico | Funcional |
|---|---|
| Tumor hipotalâmico/hipofisário | Hiperprolactinemia |
| Síndromes de sobrecarga de ferro | Uso de esteroides anabolizantes, glicocorticoides, opioides |
| Doença infiltrativa/destrutiva do hipotálamo ou da hipófise | Abuso de álcool e maconha\* |
| Hipogonadismo hipogonadotrófico idiopático | Doença sistêmica\* |
| — | Deficiência nutricional / exercício excessivo |
| — | Obesidade grave e alguns distúrbios do sono |
| — | Falência de órgão (fígado, coração e pulmão)\* |
| — | Comorbidades associadas ao envelhecimento\* |
\* Hipogonadismo combinado (primário e secundário), classificado pelo padrão hormonal que costuma predominar.
📊 Tabela 3 — Ajuste de dose e mudança de estratégia
| Situação clínica | Ação recomendada | Reavaliação |
|---|---|---|
| Início da reposição | Começar com a dose padrão da formulação escolhida | — |
| Testosterona dentro do alvo (400–700 ng/dL) | Manter a dose atual | Monitorar anualmente |
| Testosterona abaixo do alvo e sintomas persistem | Aumentar a dose gradualmente | Em 6–12 semanas |
| Testosterona acima do alvo | Reduzir a dose gradualmente | Em 6–12 semanas |
| Efeitos adversos relacionados à dose (ex.: eritrocitose leve) | Reduzir a dose gradualmente | Em 6–12 semanas |
| Sintomas persistem apesar da testosterona dentro do alvo | Reavaliar o diagnóstico, considerar outras causas, discutir a descontinuação | Decisão individualizada |
> ⚠️ Os dois números do alvo não se contradizem. A Tabela 3 é adaptada de outras diretrizes e trabalha com a faixa 400–700 ng/dL; o texto do posicionamento recomenda mirar a faixa média do normal, 450–600 ng/dL. Na prática: 450–600 é o alvo a perseguir, 400–700 é a janela em que não se mexe na dose.
Como monitorar conforme a formulação
- Ésteres de ação curta: pico plasmático em 2–5 dias e nadir em 15–20 dias — dose a cada 2 a 4 semanas, conforme a resposta clínica.
- Ação prolongada: não faz pico; mantém níveis próximos do fisiológico por 10 a 14 semanas — dosar a testosterona no fim do intervalo entre ampolas.
- Gel transdérmico: dosar 2 a 8 h após a aplicação, com pelo menos 1 semana de tratamento.
- Recomenda-se avaliar a testosterona sérica 2 a 3 meses após o início.
- Descontinuação (temporária ou definitiva): ausência de benefício clínico após 3–6 meses de níveis adequados, surgimento de contraindicação (ex.: câncer de próstata), efeitos adversos graves incontroláveis ou desejo do paciente.
Pontos-chave
- Diagnóstico exige as DUAS coisas: sintomas/sinais compatíveis + testosterona total baixa confirmada.
- Coleta pela manhã, entre 7 e 10 h, em jejum noturno. Toda dosagem baixa precisa de 2ª amostra nas mesmas condições, idealmente com 4 semanas de intervalo. Não colher em doença aguda.
- TT < 264 ng/dL apoia o diagnóstico; TT > 350 ng/dL costuma excluí-lo; entre 264 e 350 ng/dL é zona cinzenta e exige SHBG + albumina para calcular a testosterona livre.
- Testosterona livre CALCULADA (equação de Vermeulen): corte de 6,5 ng/dL.
- Contra o rastreamento populacional de rotina (Classe III, Nível A) — mas perguntar sobre sintomas a todos os homens na consulta (Classe I, Nível A).
- Alvo da reposição: faixa média do normal, entre 450 e 600 ng/dL.
- Contraindicações absolutas: câncer de mama masculino (atual ou prévio), câncer de próstata ativo ou suspeito sem avaliação urológica, e desejo de fertilidade a curto prazo.
- Hematócrito basal > 48% é contraindicação relativa; > 54% durante o tratamento, suspender temporariamente até normalizar.
- Testosterona e hematócrito aos 3, 6 e 12 meses, depois anualmente. PSA no mesmo cronograma.
- Quem deseja fertilidade não usa testosterona: hCG 1.500–2.000 UI SC 2–3x/semana (alvo de TT 400–700 ng/dL), ± FSH 75–150 UI 2–3x/semana; alternativas: clomifeno e inibidor de aromatase.
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.