Hipertireoidismo e doença de Graves
Contexto e Fisiopatologia
A doença de Graves é a causa mais comum de hipertireoidismo. É uma tireotoxicose autoimune em que autoanticorpos estimuladores do receptor de TSH (TRAb/TSI) ativam a glândula, gerando hipersecreção hormonal, bócio difuso e, em parte dos casos, orbitopatia e dermopatia (mixedema pré-tibial). O TRAb confirma o diagnóstico e ajuda a prever recidiva e disfunção fetal (diretriz ATA, 2016).
Quadro Clínico
Taquicardia/palpitações, perda de peso com apetite preservado, tremor, intolerância ao calor, sudorese, ansiedade, hiperdefecação, fraqueza proximal e, em idosos, hipertireoidismo apático (fibrilação atrial, emagrecimento). Sinais próprios de Graves: exoftalmia/oftalmopatia e bócio difuso com sopro/frêmito.
Diagnóstico e Diagnóstico Diferencial
Laboratório: TSH suprimido com T4 livre e/ou T3 elevados (T3-toxicose possível). Distinguir Graves de outras causas de tireotoxicose:
- Graves: captação e fluxo aumentados à cintilografia/USG Doppler; TRAb positivo
- Tireoidite destrutiva (subaguda, pós-parto, por amiodarona tipo 2): captação baixa, tireotoxicose autolimitada por liberação de hormônio pré-formado
- Nódulo/bócio tóxico (Plummer): captação focal/heterogênea à cintilografia
- Tireotoxicose factícia: captação baixa, tireoglobulina baixa
Tratamento
Há três opções terapêuticas, com escolha individualizada:
- Antitireoidianos (tionamidas): metimazol é a 1ª escolha (dose única diária, menos hepatotóxico); PTU no 1º trimestre da gestação e na crise tireotóxica. Curso típico de 12–18 meses; TRAb ao fim ajuda a prever recidiva.
- Radioiodo (I-131): ablação definitiva; leva a hipotireoidismo (repor levotiroxina).
- Tireoidectomia: em bócios volumosos, suspeita de malignidade, orbitopatia grave ou preferência.
- Betabloqueador (propranolol/atenolol) para controle sintomático adrenérgico (taquicardia, tremor) enquanto se aguarda o efeito da terapia definitiva; o propranolol em dose alta também reduz a conversão periférica de T4 em T3.
Orbitopatia de Graves
A oftalmopatia é uma manifestação autoimune orbitária (retração palpebral, proptose, diplopia, dor). Fatores de risco: tabagismo e TRAb elevado. Casos leves: lubrificação e cessação do tabaco; moderados a graves ativos: glicocorticoide IV (pulsos) e, em casos selecionados, imunobiológicos ou descompressão. O radioiodo pode piorá-la (ver adiante).
Cuidados e Situações Especiais
- Agranulocitose (raro, idiossincrático) e hepatotoxicidade das tionamidas: diante de febre ou dor de garganta, suspender e checar neutrófilos.
- Radioiodo pode agravar a orbitopatia ativa, sobretudo em tabagistas; evitar ou associar corticoide profilático nas formas moderadas/graves e cessar o tabagismo. Contraindicado na gestação/lactação.
- Hipertireoidismo subclínico (TSH baixo, T4L/T3 normais): tratar se TSH < 0,1 com idade ≥ 65 anos, cardiopatia/fibrilação atrial, osteoporose ou sintomas.
- Crise tireotóxica (emergência, alta mortalidade): tionamida + iodo (administrado após a tionamida, para não fornecer substrato) + betabloqueador + glicocorticoide, tratando o fator precipitante e dando suporte.
Pontos-Chave
- TRAb confirma Graves e prediz recidiva.
- Metimazol de 1ª linha, exceto PTU no 1º trimestre e na crise.
- Captação baixa aponta para tireoidite destrutiva (não usar antitireoidiano).
- Febre/dor de garganta em uso de tionamida exige checar neutrófilos (agranulocitose).
Pontos-chave
- Graves é a causa mais comum de hipertireoidismo; TRAb confirma e prediz recidiva
- Diferenciar de tireoidite destrutiva (captação baixa) e de bócio/nódulo tóxico
- Três opções: antitireoidianos, radioiodo e tireoidectomia — escolha individualizada
- Metimazol é a 1ª escolha; PTU no 1º trimestre da gestação e na crise tireotóxica
- Agranulocitose: parar a tionamida e checar neutrófilos se febre/dor de garganta
- Radioiodo pode agravar a orbitopatia ativa (evitar/associar corticoide; cessar tabagismo)
- Hipertireoidismo subclínico: tratar se TSH < 0,1 com idade ≥65, cardiopatia, osteoporose ou sintomas
- Crise tireotóxica: tionamida + iodo (após a tionamida) + betabloqueador + glicocorticoide
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.