Hiperprolactinemia e prolactinoma
Contexto e Epidemiologia
O prolactinoma é o adenoma hipofisário funcionante mais comum (cerca de 40% dos adenomas). A secreção de prolactina pelos lactotrofos é sob inibição tônica da dopamina vinda do hipotálamo pela haste hipofisária — por isso qualquer lesão que interrompa a haste eleva a prolactina (efeito de desconexão). A hiperprolactinemia inibe o eixo gonadotrófico (suprime o GnRH pulsátil → queda de LH/FSH), gerando as manifestações reprodutivas. Predomina em mulheres (microprolactinomas); em homens costuma apresentar-se como macroadenoma.
Quadro Clínico
Os sintomas típicos incluem hipogonadismo, galactorreia, amenorreia/oligomenorreia, disfunção erétil, queda de libido e infertilidade. A hiperprolactinemia crônica também favorece perda de massa óssea. Nos macroprolactinomas, soma-se o efeito de massa: cefaleia, hemianopsia bitemporal por compressão do quiasma óptico e hipopituitarismo dos demais eixos.
Diagnóstico Diferencial
Antes de investigar um tumor, é obrigatório excluir causas fisiológicas e secundárias:
- Gravidez e lactação
- Hipotireoidismo primário (TRH elevado estimula prolactina)
- Fármacos: antipsicóticos (risperidona), metoclopramida, antidepressivos, opioides, verapamil, estrogênios
- Insuficiência renal e cirrose
- Compressão/secção de haste por outras lesões selares (o valor costuma ser < 100–150 ng/mL)
Em geral, prolactina > 250 ng/mL é altamente sugestiva de prolactinoma; valores moderados exigem correlacionar com o tamanho do tumor à RM.
Armadilhas Laboratoriais
- Macroprolactina: prolactina agregada (ligada a IgG), biologicamente inativa, que eleva o valor sem sintomas — confirmar por precipitação com PEG antes de tratar.
- Efeito gancho (hook effect): prolactina falsamente baixa em macroprolactinomas por saturação do ensaio pelo excesso de antígeno — corrigir diluindo a amostra (1:100). Suspeitar sempre que houver grande tumor à RM com prolactina apenas discretamente elevada.
Tratamento
- 1ª linha: agonista dopaminérgico — cabergolina (preferida; 1–2×/semana, melhor tolerada e mais eficaz) ou bromocriptina — que normaliza a prolactina, restaura o eixo e reduz o volume tumoral, inclusive em macroprolactinomas. A cirurgia é exceção, e não regra.
- Efeitos adversos dos agonistas: náusea, hipotensão postural, tontura; em doses altas prolongadas, atenção à valvopatia cardíaca (raro nas doses do prolactinoma) e a distúrbios do controle de impulsos.
- Cirurgia transesfenoidal reservada a intolerância/resistência ao agonista, apoplexia hipofisária ou compressão aguda do quiasma com déficit visual progressivo.
- Radioterapia: casos raros, agressivos/resistentes.
Seguimento e Situações Especiais
- Após ≥ 2 anos com prolactina normal e tumor reduzido/desaparecido à RM, pode-se tentar retirar a droga, com monitorização posterior da prolactina (risco de recidiva).
- Gestação: no microprolactinoma, suspender o agonista ao confirmar a gravidez (risco de crescimento é baixo) e acompanhar clinicamente, com campo visual se houver sintomas. Nos macroprolactinomas, a decisão de manter ou suspender é individualizada, com vigilância mais estreita do campo visual.
- Prolactinoma resistente: trocar por cabergolina ou aumentar a dose antes de indicar cirurgia.
Pontos-Chave
- Prolactinoma é o adenoma funcionante mais comum e tem tratamento clínico.
- Excluir gravidez, hipotireoidismo, fármacos e IR antes de pensar em tumor.
- Macroprolactina (falso alto) e efeito gancho (falso baixo) são armadilhas laboratoriais frequentes.
- Cabergolina é a droga de escolha; cirurgia só em situações específicas.
Fonte: Pituitary Society (2023).
Pontos-chave
- Sintomas: hipogonadismo, galactorreia, amenorreia/oligomenorreia, disfunção erétil, infertilidade
- Excluir gravidez, hipotireoidismo, fármacos e insuficiência renal antes de pensar em tumor
- Macroprolactina (inativa) eleva o valor sem sintomas — confirmar por precipitação com PEG
- Efeito gancho: prolactina falsamente baixa em macroprolactinomas — diluir a amostra
- Prolactinoma é o adenoma hipofisário funcionante mais comum
- 1ª linha: agonista dopaminérgico (cabergolina) — normaliza a prolactina e reduz o tumor
- Cirurgia é reservada a intolerância/resistência ao agonista ou apoplexia/compressão aguda
- Após ≥2 anos com prolactina normal e tumor reduzido, considerar retirada; na gestação, suspender no microprolactinoma
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.