Hipercalcemia — diagnóstico e manejo
Confirmação e classificação
Antes de investigar, é preciso confirmar a hipercalcemia. Como cerca de metade do cálcio circula ligado à albumina, use o cálcio total corrigido pela albumina ou, de preferência, o cálcio iônico (fração biologicamente ativa).
- Correção: somar 0,8 mg/dL ao cálcio total para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4 g/dL.
- Gravidade: leve (< 12 mg/dL), moderada (12–14 mg/dL) e grave/crise hipercalcêmica (> 14 mg/dL ou paciente sintomático).
Primeiro passo: dosar o PTH
O PTH é o exame que divide a investigação. Ele separa as causas em dependentes (PTH alto/inapropriadamente normal) e independentes (PTH suprimido) da paratireoide.
(A) PTH-dependente — PTH alto ou inapropriadamente normal
- Hiperparatireoidismo primário: causa ambulatorial mais comum, geralmente por adenoma único.
- Hipercalcemia hipocalciúrica familiar (FHH): mutação inativadora no receptor sensor de cálcio (CaSR); cursa com calciúria BAIXA e relação depuração cálcio/creatinina < 0,01. É benigna e NÃO deve ser operada — distingui-la do hiperparatireoidismo primário evita paratireoidectomia desnecessária.
- Hiperparatireoidismo terciário (autonomização na doença renal crônica) e lítio completam o grupo.
(B) PTH-independente — PTH suprimido
- Malignidade: causa hospitalar mais comum. Mecanismos: hipercalcemia humoral por PTHrP (carcinomas escamosos de pulmão, esôfago e colo uterino; mama, próstata, ovário), metástases osteolíticas e produção de 1,25-OH-vitamina D em linfomas.
- Intoxicação por vitamina D e doenças granulomatosas (sarcoidose, tuberculose, doença de Crohn, granulomatose de Wegener): macrófagos com atividade da CYP27B1 (1-alfa-hidroxilase) elevam a 1,25-OH-vitamina D.
- Outras: hipertireoidismo, imobilização, síndrome leite-álcali, fármacos (tiazídicos, teriparatida, excesso de vitamina A), insuficiência adrenal e feocromocitoma.
- Exames complementares: PTHrP, 25-OH-D, 1,25-OH-D, eletroforese de proteínas/cadeias leves, TSH e imagem conforme a suspeita.
Quadro clínico
Síndrome clássica: "ossos, cálculos, gemidos abdominais e transtornos psíquicos" — poliúria/polidipsia (diabetes insipidus nefrogênico), náuseas, constipação, litíase renal, fraqueza muscular, confusão/letargia e encurtamento do intervalo QT ao ECG.
Manejo da hipercalcemia grave/sintomática (> 14 mg/dL ou sintomas)
- Hidratação com soro fisiológico 0,9% vigorosa — restaura o volume intravascular e promove calciurese.
- Bisfosfonato IV (ácido zoledrônico ou pamidronato) — inibe a reabsorção óssea; pico de efeito em 2–4 dias e ação duradoura.
- Calcitonina — efeito rápido, porém transitório (taquifilaxia); útil nas primeiras 48h como ponte.
- Denosumab — nos refratários a bisfosfonato ou com disfunção renal.
- Glicocorticoide — quando a 1,25-OH-D está elevada (linfoma, granulomatose, intoxicação por vitamina D), reduzindo absorção intestinal e atividade da CYP27B1 extrarrenal.
- Diálise — casos extremos ou insuficiência renal.
Evitar diuréticos de alça de rotina (só após reposição volêmica, em ICC). Sempre tratar a causa de base.
Pontos-Chave
- Confirme com cálcio corrigido/iônico e dose o PTH como primeiro passo.
- FHH: calciúria baixa, relação < 0,01, não operar.
- Malignidade é a principal causa PTH-independente hospitalar.
- Grave: soro fisiológico + bisfosfonato + calcitonina; glicocorticoide se 1,25-OH-D alta.
Pontos-chave
- Confirmar a hipercalcemia antes de investigar: cálcio total corrigido pela albumina (somar 0,8 mg/dL por 1 g/dL de albumina abaixo de 4) ou, de preferência, cálcio iônico.
- Classificar a gravidade: leve < 12, moderada 12–14, grave/crise > 14 mg/dL ou sintomática.
- O primeiro passo diagnóstico é dosar o PTH, que separa causas PTH-dependentes (alto/normal) de PTH-independentes (suprimido).
- PTH-dependente: hiperparatireoidismo primário (causa ambulatorial mais comum), FHH, hiperparatireoidismo terciário e lítio.
- FHH (mutação do CaSR) cursa com calciúria baixa e relação depuração cálcio/creatinina < 0,01, é benigna e NÃO deve ser operada.
- PTH-independente: malignidade (causa hospitalar mais comum — PTHrP, metástases osteolíticas, 1,25-OH-D em linfomas), intoxicação por vitamina D, granulomatoses, hipertireoidismo, imobilização, leite-álcali e fármacos.
- Doenças granulomatosas (sarcoidose, tuberculose) elevam a 1,25-OH-vitamina D por atividade da 1-alfa-hidroxilase (CYP27B1) em macrófagos.
- Manejo da forma grave: hidratação com SF 0,9% vigorosa, bisfosfonato IV (pico em 2–4 dias), calcitonina (rápida mas transitória), denosumab nos refratários/disfunção renal e diálise nos extremos.
- Glicocorticoide é indicado quando a 1,25-OH-D está elevada; evitar diurético de alça de rotina e sempre tratar a causa de base.
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.