Hiperaldosteronismo primário
Contexto e Epidemiologia
O hiperaldosteronismo primário (HAP) é a principal causa endócrina de hipertensão secundária, com prevalência de ~5–14% entre hipertensos na atenção primária e até ~30% em centros especializados. Permanece amplamente subdiagnosticado (perdido ou mal diagnosticado em até 95% dos casos). O excesso de aldosterona causa dano cardiovascular e renal por mecanismos independentes da pressão — inflamação vascular, fibrose miocárdica, remodelamento cardíaco e lesão glomerular —, com mais fibrilação atrial, AVC, insuficiência cardíaca e mortalidade. A diretriz de 2025 é multissocietária (Endocrine Society com AACE, AHA, ESE, ESH, ISH e PAF).
Rastreamento
A diretriz sugere rastrear TODOS os hipertensos (não só os de fenótipo clássico). Exame: aldosterona + renina + relação aldosterona/renina (RAR), colhidos pela manhã, sentado. Dosar o potássio junto (não para o rastreio, mas para interpretar). A hipocalemia aumenta a suspeita, mas sua ausência não exclui — muitos pacientes são normocalêmicos.
Rastreio positivo (na maioria dos casos, os dois critérios):
- Renina suprimida: APR ≤ 1 ng/mL/h ou renina direta (CDR) ≤ 8,2 mU/L
- Aldosterona inapropriadamente alta: ≥ 10 ng/dL (≥ 277 pmol/L) por imunoensaio ou ≥ 7,5 ng/dL (≥ 208 pmol/L) por LC-MS/MS
- RAR aumentada: aldosterona[ng/dL]/APR > 20 ou aldosterona[pmol/L]/CDR > 70 (imunoensaio); o corte é ~25% menor quando a aldosterona é medida por LC-MS/MS
Antes de dosar, corrigir a hipocalemia e ajustar interferentes quando seguro: suspender MRA/inibidores do ENaC e diuréticos por 4 semanas e IECA/BRA por 2 semanas (elevam a renina ou reduzem a aldosterona). β-bloqueadores e α₂-agonistas centrais (clonidina, α-metildopa) reduzem a renina e podem dar falso-positivo. Os cortes são um guia — usar, quando possível, os pontos de corte do laboratório local.
Tratamento Específico vs. Anti-hipertensivo Inespecífico
O HAP não deve ser tratado como HAS essencial: mira-se o mecanismo — produção autônoma de aldosterona e ativação excessiva do receptor mineralocorticoide. Anti-hipertensivos convencionais reduzem a PA, mas não bloqueiam os efeitos deletérios da aldosterona.
Confirmação Diagnóstica
Após rastreamento positivo, testes de autonomia da secreção de aldosterona (individualizados):
- Teste de infusão salina
- Teste de sobrecarga oral de sódio
- Teste com captopril
- Teste com fludrocortisona
Pode-se dispensar o confirmatório quando há evidência bioquímica overt — HAS resistente ou com hipocalemia + renina muito suprimida (APR < 0,2 ng/mL/h ou CDR < 2 mU/L) + aldosterona > 15 ng/dL (LC-MS/MS) ou > 20 ng/dL (imunoensaio) —, pois o risco de falso-negativo supera o de falso-positivo. Também é dispensável nas formas familiares (mutação germinativa).
Avaliação de Lateralização
A TC de adrenais é necessária (anatomia, nódulos, exclusão de massa suspeita), mas pode errar a lateralização — sobretudo em idosos, incidentaloma não funcionante, nódulos bilaterais, ausência de adenoma evidente ou discordância imagem×bioquímica. O cateterismo de veias adrenais (AVS) permanece o método mais confiável antes da cirurgia, quando o paciente é candidato cirúrgico.
Exceção (pode ir direto à adrenalectomia, sem AVS): indivíduo < 35 anos com PA marcante (hipocalemia espontânea, aldosterona > 30 ng/dL por imunoensaio ou > 22,5 ng/dL por LC-MS/MS, renina suprimida) e nódulo adrenal unilateral > 1,0 cm na TC — incidentaloma é raríssimo nessa faixa etária.
Tratamento Cirúrgico
A adrenalectomia é preferencial no HAP unilateral com bom risco cirúrgico e desejo de tratamento definitivo — maior chance de cura bioquímica, melhor controle pressórico e menos anti-hipertensivos. A normalização bioquímica é mais frequente que a cura completa da HAS, que pode persistir em pacientes com idade avançada, longo tempo de HAS, HAS essencial concomitante ou muitos anti-hipertensivos prévios.
Tratamento Clínico
Indicado em doença bilateral, sem lateralização definida, contraindicação/recusa cirúrgica ou sem acesso ao AVS. A base é o antagonista do receptor mineralocorticoide (MRA), preferível aos inibidores do ENaC (amilorida/triantereno):
- Espironolactona: MRA de 1ª escolha — mais potente e de menor custo; melhora PA e hipocalemia. Efeitos adversos — ginecomastia, mastalgia, disfunção sexual, irregularidade menstrual, hiperpotassemia.
- Eplerenona: menos antiandrogênica (preferível quando há efeitos hormonais), porém menos potente e de meia-vida curta (geralmente 2×/dia, doses maiores).
Ajustar conforme PA, potássio, função renal, tolerabilidade e renina.
Renina como Marcador Terapêutico
A renina suprimida é marca do HAP não tratado. Sua persistência sob MRA sugere bloqueio insuficiente e associa-se a mais anti-hipertensivos, hipocalemia, FA, AVC e mortalidade. A diretriz sugere: se a HAS permanece não controlada e a renina segue suprimida, aumentar o MRA para elevar (desbloquear) a renina — sem decidir apenas por ela (considerar PA, potássio, creatinina/TFG, efeitos adversos, adesão e comorbidades).
Cosecreção de Cortisol
Em todo HAP com adenoma adrenal, realizar teste de supressão com 1 mg de dexametasona (overnight) para investigar hipercortisolismo autônomo — impacta risco metabólico/CV, avaliação perioperatória e a necessidade de reposição de glicocorticoide no pós-operatório (risco de insuficiência adrenal transitória após a cirurgia).
Teste Genético (formas familiares)
Considerar teste genético para hiperaldosteronismo familiar (tipos I–IV) quando:
- HAS de início < 20 anos
- Parentes de 1º grau com HAP
- História familiar de HAS ou de AVC precoce (< 40 anos)
Mensagem Final
O HAP é frequente, subdiagnosticado e associado a risco cardiovascular e renal relevante. O objetivo não é apenas reduzir a PA, mas bloquear os efeitos deletérios da aldosterona: adrenalectomia na doença unilateral e MRA nos casos bilaterais ou não cirúrgicos, com seguimento de PA, potássio, função renal, efeitos adversos e, quando possível, renina.
Pontos-chave
- HAP é a causa endócrina mais comum de HAS secundária (5–14% na atenção primária, até ~30% em terciários) e amplamente subdiagnosticado — o excesso de aldosterona causa dano CV/renal independente da PA (FA, AVC, IC).
- Rastrear TODOS os hipertensos com aldosterona + renina + RAR (manhã, sentado); a normocalemia NÃO exclui. Corrigir K⁺ e ajustar interferentes antes (MRA/ENaC/diurético 4 sem; IECA/BRA 2 sem).
- Positivo: renina suprimida (APR ≤1 ng/mL/h ou CDR ≤8,2 mU/L) + aldosterona ≥10 ng/dL (imunoensaio) ou ≥7,5 ng/dL (LC-MS/MS) + RAR elevada (aldo/APR >20).
- Confirmar com teste de autonomia (salina, sódio oral, captopril, fludrocortisona) — dispensável no quadro overt (renina APR <0,2/CDR <2 + aldo >15 ng/dL LC-MS/MS ou >20 ng/dL imunoensaio) ou nas formas familiares.
- Lateralização: TC + cateterismo de veias adrenais (AVS) é o padrão-ouro; a TC não substitui o AVS. Exceção — ir direto à adrenalectomia se <35 anos + PA marcante + nódulo unilateral >1 cm.
- Unilateral → adrenalectomia (cura bioquímica frequente; cura completa da HAS menos comum). Bilateral/não cirúrgico → MRA (preferível ao inibidor de ENaC).
- MRA: espironolactona (1ª escolha, mais potente; ginecomastia/disfunção sexual) ou eplerenona (menos antiandrogênica, 2×/dia). Renina persistentemente suprimida = titular para 'desbloquear' a renina.
- Todo HAP com adenoma: teste de 1 mg de dexametasona (cosecreção de cortisol). Teste genético se HAS <20 anos, parentes 1º grau com HAP, ou HF de HAS/AVC precoce <40 anos.
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.