Endocrinopatias induzidas por fármacos
Definição
As endocrinopatias induzidas por fármacos são alterações hormonais e metabólicas causadas por medicamentos de uso corrente, que interferem na produção, no transporte ou na sinalização hormonal, nos eixos de retroalimentação ou nos próprios ensaios laboratoriais. Com 10% da população e 30% dos idosos em polifarmácia, a anamnese medicamentosa meticulosa é essencial. O objetivo é reconhecer, monitorar e conduzir precocemente.
Hiperglicemia e Diabetes induzidos por fármacos
- Glicocorticoides: causa mais importante; hiperglicemia em 32,3% e diabetes em 18,6%; dobram o risco. Mecanismo: resistência insulínica (↑gliconeogênese, ↓GLUT4) e disfunção de célula beta. Padrão pós-prandial vespertino. Tratamento: dieta, metformina 1ª escolha, TZD; insulina basal 0,1 U/kg ao deitar em doses altas.
- Antipsicóticos atípicos (SGAs): olanzapina e clozapina causam maior ganho ponderal e ↑HbA1c; ganho de 5% do peso em 4 semanas é mau prognóstico; risco de cetoacidose.
- Inibidores de calcineurina (tacrolimo > ciclosporina): diabetes pós-transplante (NODAT) por toxicidade em célula beta.
- Estatinas: ↓secreção e ação da insulina. Tiazídicos e betabloqueadores: novo diabetes com RR 1,20–1,32. Pasireotida: hiperglicemia em até 30%.
Disfunção Tireoidiana
- Amiodarona: 37% de iodo; meia-vida 30–100 dias; disfunção em 14–18%. Inibe a 5'-deiodinase tipo 1 (↑T4 ~40%, ↓T3 20–25%, TSH sobe no início). AIH (4–22%): falha do escape ao Wolff-Chaikoff, sobretudo em Hashimoto; tratar com LT4 mantendo a amiodarona. AIT tipo 1 (Jod-Basedow, nódulos prévios): tionamidas; AIT tipo 2 (tireoidite destrutiva, glândula normal): glicocorticoides; mistas: combinação.
- Lítio: bócio em até 50%; hipotireoidismo subclínico em até 30%; RR 8,4 se anti-TPO positivo. Interferon: tireoidite autoimune/destrutiva.
Opioides e Hiperprolactinemia
- Hipogonadismo (OPIAD) é o efeito mais reconhecido (inibe pulsatilidade de GnRH): 50–85% em dependentes de heroína/metadona, 19–86% na dor crônica. Ação longa e fentanil/metadona/oxicodona têm maior risco; buprenorfina/tapentadol poupam. Diagnóstico: testosterona em 2 amostras matinais (08–09h), LH/FSH, SHBG. Conduta: reduzir/suspender/trocar por buprenorfina; reposição de testosterona. Opioides também suprimem o eixo HHA (hipoadrenalismo ~9–22,5%) e reduzem a DMO.
- Hiperprolactinemia: antagonistas D2 elevam PRL, às vezes >200 µg/L (antipsicóticos típicos, risperidona, metoclopramida, domperidona). Conduta: suspender/substituir por 3 dias; se impossível, RM de hipófise; trocar por aripiprazol (poupador) ou agonista dopaminérgico cauteloso.
Lítio: múltiplos eixos
Alvo 0,6–1,25 mEq/L (≤0,75 no uso prolongado); dosar a cada 3–6 meses. Além da tireoide, causa hiperparatireoidismo/hipercalcemia (desloca o set-point do receptor de cálcio; mulheres 4:1) e diabetes insípido nefrogênico em 20–40% (downregulação da AQP2), principal causa adquirida de DIN. Preferir amilorida; tiazídico com cautela. Verificar cálcio e TSH antes e durante o tratamento.
Glicocorticoides: eixo HHA e Cushing iatrogênico
GC exógeno suprime o eixo HHA, com risco de insuficiência adrenal na retirada e Cushing iatrogênico. Doses ≥ 7,5 mg/dia de prednisolona aumentam o risco de fratura vertebral (já elevado com 2,5 mg). Retirar sempre de forma gradual e monitorar hipercortisolismo.
Pontos-Chave
Pontos-chave
- Anamnese medicamentosa meticulosa é essencial: fármacos causam endocrinopatias por alterar produção, transporte e sinalização hormonal ou interferir nos ensaios laboratoriais.
- Glicocorticoides são a principal causa de hiperglicemia/diabetes medicamentoso (hiperglicemia 32,3%, diabetes 18,6%; risco dobrado), com padrão pós-prandial vespertino tratado com metformina e insulina basal.
- Antipsicóticos atípicos (olanzapina, clozapina) causam ganho ponderal, resistência insulínica e diabetes; ganho de 5% do peso em 4 semanas é sinal de mau prognóstico.
- Amiodarona (37% de iodo, meia-vida 30–100 dias) causa hipotireoidismo (AIH, tratar com LT4 mantendo a droga) ou tireotoxicose tipo 1 (tionamidas) e tipo 2 (glicocorticoides).
- Opioides induzem hipogonadismo hipogonadotrófico (OPIAD) em 50–85% dos dependentes; diagnosticar com testosterona matinal em 2 amostras, LH/FSH, e tratar reduzindo dose ou repondo testosterona.
- Antagonistas dopaminérgicos D2 (antipsicóticos, metoclopramida, domperidona) elevam prolactina, podendo ultrapassar 200 µg/L; aripiprazol é opção poupadora.
- Lítio provoca bócio/hipotireoidismo (até 50%/30%), hiperparatireoidismo com hipercalcemia e diabetes insípido nefrogênico (20–40%), exigindo dosagem de cálcio e TSH antes e durante o uso.
- Glicocorticoides exógenos suprimem o eixo HHA gerando Cushing iatrogênico e insuficiência adrenal na retirada abrupta; suspender sempre de forma gradual.
- Princípio geral de manejo: reconhecer precocemente, monitorar de forma programada e, quando possível, reduzir, suspender ou substituir o fármaco causador, com reposição hormonal quando indicada.
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.