Doença ocular da tireoide (orbitopatia de Graves)
Contexto
A doença ocular da tireoide (DOT) — ou orbitopatia de Graves — é a manifestação extratireoidiana mais comum da doença de Graves (pode ocorrer também na tireoidite de Hashimoto e, raramente, em eutireóideos). É autoimune, mediada pela ativação do receptor de TSH e do receptor de IGF-1 nos fibroblastos orbitários, levando a inflamação e expansão da gordura e dos músculos extraoculares. Fatores de risco: tabagismo (o mais importante e modificável), TRAb alto, hipertireoidismo mal controlado e radioiodo (pode piorar a DOT). O consenso conjunto ATA/ETA (2022) coloca o endocrinologista como central no diagnóstico e na triagem.
Quadro clínico
- Retração palpebral, exoftalmia/proptose, edema e hiperemia conjuntival/palpebral, sensação de corpo estranho.
- Diplopia por acometimento dos músculos extraoculares.
- Grave: neuropatia óptica compressiva (baixa acuidade/discromatopsia) e exposição corneana — risco de perda visual.
Avaliação de atividade e gravidade
- Atividade: escore de atividade clínica (CAS); ≥3/7 indica doença ativa (inflamatória).
- Gravidade: leve, moderada-a-grave e muito grave (com risco à visão — neuropatia óptica/úlcera de córnea).
- Distinguir a fase ativa (janela para imunossupressão/imunobiológico) da inativa/fibrótica (cirurgia reabilitadora).
Medidas gerais (todos)
- Cessar o tabagismo (impacta diretamente a gravidade e a resposta ao tratamento).
- Normalizar a função tireoidiana (evitar hiper e hipotireoidismo).
- Lubrificação ocular; selênio por ~6 meses na doença leve (áreas de baixa ingestão).
- Ao optar por radioiodo na Graves com DOT ativa, considerar profilaxia com corticoide.
Tratamento por gravidade
- Leve: medidas locais + selênio; observação.
- Moderada-a-grave ATIVA:
- Glicocorticoide IV (metilprednisolona em pulsos; ~4,5–5 g cumulativos em 12 semanas) — preferido quando o objetivo é controlar a inflamação/inativar a doença.
- Teprotumumabe (anticorpo anti-receptor de IGF-1; 8 infusões IV a cada 3 semanas) — opção de 1ª linha sobretudo quando predomina a proptose (redução ~2–3 mm; melhora da diplopia). No Brasil, aprovado pela ANVISA em 2023 (1ª droga para a DOT ativa).
- Alternativas/associações: micofenolato (+ corticoide), rituximabe (casos selecionados), radioterapia orbitária.
- Muito grave (neuropatia óptica compressiva): pulso de metilprednisolona em alta dose e, se não houver resposta em ~1–2 semanas, descompressão orbitária cirúrgica de urgência.
- Inativa/sequelas: cirurgia reabilitadora em etapas — descompressão → estrabismo → pálpebras.
Efeitos adversos a vigiar
- Teprotumumabe: hiperglicemia (monitorar, sobretudo em diabéticos) e perda auditiva/zumbido.
- Corticoide IV: hepatotoxicidade, hiperglicemia, risco cardiovascular.
Pontos-Chave
- DOT = manifestação extratireoidiana mais comum da Graves; o tabagismo é o principal fator modificável.
- Classificar por atividade (CAS ≥3 = ativa) e por gravidade.
- Moderada-a-grave ativa: glicocorticoide IV (inflamação) ou teprotumumabe (proptose) — ANVISA 2023.
- Neuropatia óptica compressiva = emergência → pulso de corticoide ± descompressão orbitária.
- Normalizar a tireoide, cessar o tabagismo e considerar profilaxia com corticoide se usar radioiodo em DOT ativa.
Pontos-chave
- DOT/orbitopatia de Graves: manifestação extratireoidiana mais comum da doença de Graves (autoimune; receptores de TSH e IGF-1 nos fibroblastos orbitários)
- Tabagismo é o principal fator de risco modificável; piora com radioiodo e hipertireoidismo mal controlado
- Classificar por atividade (CAS ≥3/7 = ativa) e gravidade (leve, moderada-a-grave, muito grave com risco visual)
- Medidas gerais: cessar tabagismo, normalizar a tireoide, lubrificação; selênio na doença leve
- Moderada-a-grave ativa: glicocorticoide IV (inflamação) ou teprotumumabe (anti-IGF-1R) quando predomina proptose
- Teprotumumabe aprovado pela ANVISA em 2023 (1ª droga para DOT ativa); vigiar hiperglicemia e perda auditiva
- Neuropatia óptica compressiva = emergência: pulso de metilprednisolona ± descompressão orbitária
- Ao usar radioiodo na Graves com DOT ativa, considerar profilaxia com corticoide
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.