Dislipidemia nas doenças endócrinas
Definição
As doenças endócrinas modulam praticamente todas as vias do metabolismo das lipoproteínas — expressão de receptores, produção de apolipoproteínas, atividade enzimática plasmática e disponibilidade de substratos (ácidos graxos, glicose). Por isso, distúrbios hormonais frequentemente alteram o perfil lipídico e o risco cardiovascular aterosclerótico (ASCVD). O guideline da Endocrine Society 2020 (co-patrocinado pela European Society of Endocrinology) aborda a avaliação e o manejo da dislipidemia nesses contextos, com o objetivo de prevenir eventos cardiovasculares e pancreatite induzida por triglicérides.
Rastreamento e Avaliação de Risco
- Solicitar painel lipídico em todo adulto com doença endócrina; amostra não jejum é aceitável para triagem inicial, mas repetir em jejum se TG elevados ou suspeita de dislipidemia genética.
- Estimar o risco de ASCVD em 10 anos (ex.: Pooled Cohort Equations). Risco limítrofe = 5%–7,4% e intermediário = 7,5%–19,9%.
- Em risco limítrofe/intermediário com incerteza terapêutica, medir escore de cálcio coronariano (CAC). CAC = 0 indica risco muito baixo; CAC > 100 ou acima do percentil 75 favorece iniciar estatina.
- Medir Lp(a) se história de ASCVD prematura; Lp(a) ≥ 50 mg/dL (125 nmol/L) aumenta o risco.
Hipertrigliceridemia e Pancreatite
- TG jejum > 500 mg/dL (5,6 mmol/L): tratamento farmacológico + dieta/exercício para prevenir pancreatite.
- Em pancreatite hipertrigliceridêmica, evitar plasmaférese e infusão de insulina como primeira linha (exceto se diabetes descompensado).
- Em estatina com TG > 150 mg/dL e ASCVD ou diabetes + 2 fatores de risco: adicionar icosapent etila 4 g/dia.
Doenças Endócrinas Específicas
- Hipotireoidismo: pode elevar colesterol e TG. Descartar hipotireoidismo antes de iniciar hipolipemiante; não tratar a hiperlipidemia até o paciente ficar eutireóideo no hipotireoidismo franco. No subclínico com TSH < 10 mIU/L e hiperlipidemia, considerar levotiroxina para reduzir LDL.
- Hipertireoidismo: reavaliar o perfil após atingir eutireoidismo (mudanças no LDL já em 3 meses).
- Síndrome de Cushing (hipercortisolismo): monitorar perfil lipídico ao diagnóstico; no Cushing endógeno persistente, estatina independentemente do escore de risco (alvo LDL, tratar se LDL > 70 mg/dL). Mitotano causa dislipidemia secundária. Após cura, tratar como população geral.
- Acromegalia: medir perfil lipídico antes e após o tratamento do excesso de GH.
- Deficiência de GH: perfil ao diagnóstico; tratar lípides se hipopituitarismo; não usar GH apenas para reduzir LDL.
- SOP: painel lipídico em jejum ao diagnóstico — hipertrigliceridemia é a alteração mais comum; não usar hipolipemiantes para tratar hiperandrogenismo/infertilidade.
- Obesidade: avaliar componentes da síndrome metabólica; medidas de estilo de vida em primeira linha; reavaliar lípides após 5% de perda de peso e após cirurgia bariátrica (bypass em Y de Roux reduz mais o LDL).
Hormônios Sexuais e Menopausa
- Estrogênio oral aumenta HDL até 15% e reduz LDL até 20%, mas pode elevar drasticamente TG e desencadear pancreatite em predispostos; via transdérmica altera menos.
- Na pós-menopausa, tratar dislipidemia com estatina, não com terapia hormonal (que aumenta risco de TEV/AVC).
- Menopausa precoce (< 40–45 anos): avaliar e tratar fatores de risco CV.
- Testosterona: prescrever apenas por indicação sintomática, não para melhorar lípides. HDL < 30 mg/dL sem hipertrigliceridemia sugere abuso de esteroides anabolizantes.
Pontos-Chave
Pontos-chave
- Em todo adulto com doença endócrina, solicitar painel lipídico (não jejum aceitável na triagem) e calcular o risco de ASCVD em 10 anos pelas Pooled Cohort Equations.
- Sempre descartar hipotireoidismo como causa de hiperlipidemia ANTES de iniciar hipolipemiante; no hipotireoidismo franco, não tratar a dislipidemia até o paciente ficar eutireóideo.
- No hipotireoidismo subclínico com TSH < 10 mIU/L e hiperlipidemia, considerar levotiroxina para reduzir o LDL; no hipertireoidismo, reavaliar o perfil após atingir eutireoidismo.
- TG em jejum > 500 mg/dL exige tratamento farmacológico com dieta e exercício para prevenir pancreatite; evitar plasmaférese e insulina como primeira linha na pancreatite hipertrigliceridêmica.
- Na síndrome de Cushing endógena persistente, indicar estatina independentemente do escore de risco, tratando se LDL > 70 mg/dL; mitotano causa dislipidemia secundária.
- Na acromegalia, medir o perfil lipídico antes e após o tratamento do excesso de GH; na deficiência de GH, não usar reposição de GH apenas para reduzir o LDL.
- Na SOP, obter painel lipídico em jejum ao diagnóstico, sendo a hipertrigliceridemia a alteração mais comum; não usar hipolipemiantes para tratar hiperandrogenismo ou infertilidade.
- O estrogênio oral aumenta HDL até 15% e reduz LDL até 20%, porém eleva TG (risco de pancreatite); na pós-menopausa, tratar dislipidemia com estatina e não com terapia hormonal.
- HDL < 30 mg/dL sem hipertrigliceridemia deve levantar suspeita de abuso de esteroides anabolizantes; testosterona não deve ser prescrita para melhorar o perfil lipídico ou o risco CV.
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.