Craniofaringioma
Definição e Epidemiologia
O craniofaringioma é um tumor epitelial benigno (OMS grau 1, baixo grau histológico) da região selar/suprasselar, derivado de remanescentes embrionários da bolsa de Rathke (ducto craniofaríngeo). Apesar de histologicamente benigno, causa morbidade importante pela proximidade anatômica com o eixo hipotálamo-hipófise e o quiasma óptico. Tem distribuição etária bimodal: crianças (5–14 anos) e adultos (50–70 anos). A sobrevida em 20 anos após craniofaringioma da infância é alta (87–95%), porém a qualidade de vida é frequentemente comprometida a longo prazo.
Subtipos e Genética Molecular
Existem dois subtipos com genética distinta:
- Adamantinomatoso: mais comum em crianças; associado a mutação de CTNNB1 (beta-catenina) com ativação da via WNT; predominantemente cístico, com calcificações e líquido espesso tipo "óleo de motor". Vale a "regra dos 90%": ~90% são císticos, ~90% calcificam e ~90% captam contraste na parede do cisto.
- Papilífero: típico de adultos; associado a mutação BRAF V600E; predominantemente sólido e sem calcificação.
Manifestações Clínicas
Decorrem de efeito de massa e disfunção hipotálamo-hipofisária:
- Cefaleia e sinais de hipertensão intracraniana (náusea, vômito), inclusive hidrocefalia.
- Distúrbios visuais por compressão do quiasma óptico (hemianopsia bitemporal), presentes em 62–84%.
- Hipopituitarismo: deficiências de GH (~75%), gonadotrofinas LH/FSH (~40%), TSH (~25%) e ACTH (~25%); retardo de crescimento em crianças.
{barra: GH ~75%, Gonadotrofinas LH/FSH ~40%, TSH ~25%, ACTH ~25%}
- Diabetes insípido central por deficiência de AVP (17–27% no pré-operatório).
- Disfunção hipotalâmica: obesidade hipotalâmica, distúrbios de sede, temperatura, sono e comportamento.
O diagnóstico costuma ser tardio. A combinação de cefaleia, alteração visual, retardo de crescimento e poliúria/polidipsia é altamente sugestiva.
Diagnóstico
- RM de sela: lesão selar/suprasselar com componentes cístico e sólido; caracteriza extensão e envolvimento hipotalâmico.
- TC: padrão-ouro para detectar calcificação (a RM não visualiza bem calcificações).
- Avaliação endócrina completa de todos os eixos.
- Campimetria (campo visual).
Tratamento
- Cirurgia: ressecção transesfenoidal ou craniotomia, conforme extensão. A ressecção completa é a escolha quando o tumor é favoravelmente localizado, preservando funções óptica e hipotalâmica. Em envolvimento hipotalâmico, prefere-se cirurgia poupadora do hipotálamo, pois a lesão hipotalâmica é o principal determinante de morbidade a longo prazo.
- Radioterapia (fótons ou prótons): indicada em ressecção subtotal ou recidiva — o tumor tem alta taxa de recidiva/progressão.
- Drenagem/instilação em cistos (cateter e reservatório de Ommaya; interferon-alfa intracístico em cistos recidivantes).
- Terapia-alvo: no subtipo papilífero com BRAF V600E, inibidores de BRAF/MEK (dabrafenibe + trametinibe) podem reduzir o tumor.
Sequelas e Seguimento
- Pan-hipopituitarismo e diabetes insípido exigem reposição hormonal vitalícia, incluindo doses de estresse de glicocorticoide.
- Obesidade hipotalâmica (35% ao diagnóstico, até 65–80% após cirurgia radical), refratária a intervenções convencionais, com pior qualidade de vida.
- Seguimento com RM seriada, reavaliação endócrina e visual, em equipe multidisciplinar; doença de caráter crônico.
Pontos-Chave
Pontos-chave
- Craniofaringioma é tumor epitelial benigno (OMS grau 1) da região selar/suprasselar, derivado de remanescentes da bolsa de Rathke, com distribuição etária bimodal (crianças 5–14 anos e adultos 50–70 anos).
- Subtipo adamantinomatoso: mais em crianças, mutação CTNNB1/beta-catenina, cístico com calcificações e líquido tipo 'óleo de motor'.
- Subtipo papilífero: mais em adultos, mutação BRAF V600E, predominantemente sólido e sem calcificação.
- Clínica por efeito de massa e disfunção hipotálamo-hipófise: cefaleia, hemianopsia bitemporal (compressão do quiasma), hipopituitarismo (GH, gonadotrofinas, ACTH, TSH), diabetes insípido e disfunção hipotalâmica.
- Diagnóstico: RM de sela (componentes cístico e sólido) + TC para calcificação + avaliação endócrina completa + campo visual.
- Tratamento cirúrgico (transesfenoidal ou craniotomia) deve evitar lesão hipotalâmica, principal determinante de morbidade a longo prazo.
- Radioterapia é indicada em ressecção subtotal ou recidiva, pois o tumor tem alta taxa de recidiva/progressão.
- Terapia-alvo: no papilífero com BRAF V600E, dabrafenibe + trametinibe (inibidores de BRAF/MEK) podem reduzir o tumor.
- Sequelas: pan-hipopituitarismo e DI exigem reposição vitalícia (com doses de estresse de glicocorticoide) e obesidade hipotalâmica; seguimento com RM e reavaliação endócrina/visual.
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.