Carcinoma anaplásico de tireoide
Definição
O carcinoma anaplásico de tireoide (CAT/ATC) é um tumor indiferenciado derivado das células foliculares, um dos cânceres sólidos mais agressivos do ser humano. As células perdem completamente as características tireoidianas (captação de iodo, síntese de tireoglobulina, dependência de TSH). Frequentemente surge sobre um carcinoma diferenciado (CDT) ou pouco diferenciado preexistente, sendo comum a coexistência de áreas de carcinoma papilífero. Por definição, todo CAT é estádio IV no sistema AJCC/TNM 8ª edição.
Epidemiologia/Etiologia
- Representa apenas 1–2% dos cânceres de tireoide, mas responde por 20–50% das mortes por câncer tireoidiano.
{barra: Dos cânceres de tireoide 1–2%; Das mortes por câncer de tireoide 20–50%}
- Incidência de 0,9–1,2 casos por milhão; pico na 5ª–7ª décadas (mediana ~68 anos), predomínio no sexo feminino.
- Sobrevida global mediana de 3–6 meses; menos de 20% vivos em 1 ano.
- Acúmulo de alterações oncogênicas: BRAF V600E (~45%), RAS (~24%), TERT promoter (~75%), TP53 (~63%), além de PIK3CA, PTEN, EIF1AX. Mutações BRAF/RAS + TERT concomitantes conferem pior prognóstico.
Quadro Clínico
- Massa cervical de crescimento rápido, endurecida, por vezes com eritema e edema da pele.
- Sintomas compressivos: dispneia, estridor, disfagia, rouquidão/disfonia (invasão do nervo laríngeo recorrente com paralisia de corda vocal), dor.
- 30–40% com metástases locorregionais e/ou paralisia de corda vocal; ~70% com invasão local (traqueia, esôfago, laringe). Metástases à distância frequentes: pulmão (50–80%), osso, pele, cérebro.
- Constitui emergência oncológica por risco de obstrução de via aérea.
Diagnóstico
- Diagnóstico rápido (meta de conclusão em < 1 semana): PAAF costuma ser insuficiente; preferir core biopsy (alta sensibilidade) ou biópsia incisional.
- Imuno-histoquímica: PAX8 e P53 frequentemente positivos, queratina focal; negativos para TTF-1, tireoglobulina e calcitonina (afasta CDT e carcinoma medular).
- Teste molecular urgente, sobretudo BRAF V600E, por seu impacto terapêutico imediato.
- Estadiamento anatômico: PET-CT/TC de pescoço, tórax, abdome e pelve e RM (preferencial) ou TC de crânio.
- Avaliação precoce de via aérea por otorrinolaringologia; considerar traqueostomia em obstrução iminente.
Tratamento
- Abordagem multidisciplinar e rápida, guiada pelo estádio (IVA, IVB, IVC) e por diretivas do paciente.
- IVA (confinado à tireoide) e IVB ressecável (extensão extratireoidiana grossa/linfonodos): cirurgia com intenção R0/R1 seguida de IMRT + quimioterapia à base de taxano; evitar cirurgias mutilantes que atrasem o tratamento.
- IVB irressecável: quimiorradioterapia definitiva; neoadjuvância possível em casos selecionados.
- BRAF V600E mutado: dabrafenibe + trametinibe (aprovado pelo FDA), com opção neoadjuvante para converter tumor irressecável e permitir cirurgia posterior.
- Imunoterapia (anti-PD-1/PD-L1, como pembrolizumabe) e outros TKIs (lenvatinibe, pazopanibe) como opções/salvamento; alta expressão de PD-L1.
- IVC (metástases à distância): terapia sistêmica, ensaios clínicos ou melhor suporte.
Seguimento/Pontos práticos
- A decisão terapêutica precoce e o esclarecimento de metas de cuidado são essenciais.
- Cuidados paliativos e diretivas antecipadas devem ser integrados desde o diagnóstico.
- Doença residual macroscópica é o preditor independente mais importante de sobrevida.
Pontos-Chave
Pontos-chave
- O carcinoma anaplásico de tireoide é um tumor indiferenciado das células foliculares, um dos mais agressivos do ser humano, com sobrevida global mediana de apenas 3–6 meses.
- Representa 1–2% dos cânceres de tireoide, mas responde por 20–50% das mortes por câncer tireoidiano; por definição é sempre estádio IV (AJCC 8ª edição).
- Constitui emergência oncológica: massa cervical de crescimento rápido com risco de obstrução de via aérea, dispneia, estridor, disfagia e paralisia de corda vocal.
- O diagnóstico deve ser rápido (meta < 1 semana), preferindo core biopsy à PAAF, com imuno-histoquímica: PAX8 e P53 positivos, TTF-1, tireoglobulina e calcitonina negativos.
- O teste molecular urgente, sobretudo BRAF V600E (~45%), é obrigatório por seu impacto terapêutico imediato; TERT promoter (~75%) e TP53 (~63%) também são frequentes.
- A avaliação precoce da via aérea é fundamental; a traqueostomia pode ser necessária em obstrução iminente ou para permitir a conclusão do estadiamento.
- O tratamento é multimodal: cirurgia (R0/R1) quando ressecável, seguida de IMRT associada a quimioterapia à base de taxano; a terapia trimodal oferece melhor sobrevida.
- Em tumores BRAF V600E mutados, a combinação dabrafenibe + trametinibe é aprovada, com opção neoadjuvante para converter tumor irressecável em ressecável; imunoterapia é opção emergente.
- A decisão terapêutica precoce, os cuidados paliativos e as diretivas antecipadas devem ser integrados desde o diagnóstico, pois a doença residual macroscópica é o principal preditor de sobrevida.
Resumo de estudo. Confira sempre o documento original antes de aplicar qualquer conduta.